DJ Erick Jay conta como se sagrou campeão mundial
erick jay
Erick Jay. Foto: Renato Nascimento/ Divulgação
Unplug > Inspire-se

“Temos muito mais DJs que a Europa”, defende DJ Erick Jay, campeão mundial

Kaluan Bernardo em 10 de fevereiro de 2017

“Precisa falar tipo entrevista de emprego? [risos] Sou Erick Garcia, mais conhecido como Erick Jay, nasci em São Paulo, Zona Leste, Avenida Sapopemba, e tenho 31 anos de idade”, brinca o atual campeão mundial da categoria “Battle for Supremacy” do DMC , o principal torneio de DJs do mundo.

Filho de DJ, Erick Jay teve contato desde pequeno com o mundo dos discos. Ouvia muito Roberto Carlos, Tim Maia, Kool and the Gang e Michael Jackson. Foi na década de 1990, quando viu seu irmão dançar break, que também quis entrar nessa e passou a ouvir mais hip-hop. Também foi seu irmão quem apresentou o filme “Beat Street” (“A Loucura do Ritmo” no Brasil), “que mostrava bem os quatro elementos do hip-hop: o grafite, o MC, o DJ e a dança”, lembra.

O rap nacional que ouvia vinha da rádio Metropolitana, com artistas como Filosofia de Rua, Thaíde, Comando DMC, Os Metralhas, Facção Central e outros. De internacional, Beastie Boys, Run DMC, Grandmaster Flash, LL Cool J e afins.

Com 11 anos ia nos bailes e na São Bento para dançar. “Consegui pegar o final da São Bento, lá por 1997. E aí eu ficava perto do DJ vendo ele tocar, comandando a nave nos grupos de rap. Falei: é isso o que quero fazer, ser o maestro”, lembra. Começou a tocar em um grupo chamado Manifesto Popular. Mas haviam outros Ericks famosos no rap nacional, como Erick 12 e Erick Japonês. Foi quando seu amigo lhe sugeriu Erick Jay e pegou.

No caminho para ser um DJ profissional

Foi ainda em 1997 que Erick Jay viu fitas de campeonatos e resolveu que era aquilo que ele queria fazer de verdade. “Abriu minha mente, vi que o bagulho era outra coisa, outro nível. Não é só mixar, é uma parada muito mais além. E aí quis começar a treinar”, conta.

Mas Erick não tinha a aparelhagem. “Tinha umas CCE antigas, mas o toque é diferente”, conta. Foi quando conheceu o Navalha, que não era DJ, comprou uma mesa de controle de DJ (MK2) e emprestou para outro amigo, o DJ Zulu. Zulu convidou Erick pra treinar em sua casa e começou a ensinar tudo para ele.

“Era tipo Mestre Splinter, ou aqueles mestres de filme japonês, sabe? Eu achava que era DJ e ele me mostrou que estava tudo errado. ‘Repete, faz certo, está feio, arruma, ninguém está entendendo, scratch tem um desenho, as pessoas têm que entender o que você está fazendo'”, lembra .”Ele era assim. Mas foi bom. Ele ser chato fez eu ser o que sou hoje. Acho que falta muito disso nas escolas, nos instrutores. Por isso está cheio de gente que acha que é DJ”, conta.

Erick Jay entrou pro primeiro campeonato em 2002, mas despreparado, o máximo que conseguiu foi a repescagem. Entre 2002 e 2005 viveu uma rotina intensa: acordava às 4h para distribuir panfletos, chegava em casa 12h, ia para o DJ Zulu e treinava até tarde, voltava pra casa e dormia. Ele conta:

O treino é como o de atleta. Várias vezes deixava de comprar tênis pra comprar disco.

A rotina funcionou. Em 2005 foi vice-campeão do Hip Hop DJ, competição nacional. No vice-campeonato ganhou um mixer e isso o incentivou. No ano seguinte foi campeão do mesmo torneio.

Erick Jay. Foto: Divulgação.

O principal campeonato internacional, o DMC, voltou para o Brasil só em 2008. Erick Jay se inscreveu. “Era meu sonho. Minha inspiração era o Roc Raida, via ele construindo batida com dois discos iguais. Ele veio, falei ‘mano, preciso ganhar'”, conta. Mas naquele ano quem venceu a versão foi DJ RM, seu amigo e também pupilo do DJ Zulu.

Mas em 2009 venceu o DMC Brasil e foi pra Londres representar o Brasil. Em 2015 foi vice-campeão. “Eu estava preparado, só perdi porque o oponente era americano“, ataca. Mas, no ano seguinte, em 2016, voltou e venceu na categoria “Batalha pela supremacia”.

No mesmo ano venceu o IDA World, da International DJ Association, outra competição importante, na Polônia. Ao todo, em sua carreira, soma 17 títulos nos torneios.

Sua rotina consiste em treinos de quatro horas, além dos estudos. “Depois que chegou o YouTube nossa vida melhorou muito, porque conseguíamos estudar os caras. Antes o DVD demorava um ano pra sair e ficávamos um ano atrasados”, conta.

Erick gosta das lições do passado, mas não descarta as novidades. “Procuro usar minha linha old school com a nova escola. Porque a tecnologia nos ajudou mesmo. O pessoal zela pela nostalgia por conta da criação da batida, que é mais ritmada. E tem uma galera da nova escola que é mais do barulho. Eu gosto também, procuro usar os dois”, diz

E ele é a favor do uso de tecnologia nos campeonatos. “Com o software conseguimos nos igualar no nível dos caras. Antes não dava, era quase impossível. Porque a gente tinha que produzir dois discos iguais e prensar. Mas aqui no Brasil você só prensa de 100 discos pra cima. Aí é caríssimo. Mas lá fora é fácil”, diz. Hoje Erick acredita que o Brasil é um dos cinco maiores países em DJs, perdendo para EUA, Japão e França.

Eles não valorizam porque é pais de terceiro mundo. Mas temos muito mais DJs que a Europa. Antigamente a cultura hip-hop era coisa de quebrada. E isso o Brasil tem. A gente só não tem grana mesmo.

Os shows e a evolução do hip-hop

Erick Jay continua acompanhando a evolução da música. Valoriza o hip-hop atual. “Gosto muito do Emicida, lembro quando ele colocava a mixtape embaixo do braço e vendendo de porta em porta. Hoje criticam ele, mas são todos hipócritas. O rap diz que você tem que crescer, lutar contra o sistema. Aí quando você cresce falam mal, que você é vendido. Lembro dele, do Rashid, do Projota, quando ninguém dava R$ 1. Eles fizeram coisas que ninguém estava fazendo hoje. Conseguem pensar mais rápido”, comenta.

O DJ também frequentava as batalhas de MCs na Santa Cruz. Acompanhava nomes como Emicida e Kamau. Hoje, Erick trabalha como DJ do rapper Kamau. Além disso também é no programa “Manos e Minas”, da TV Cultura.

LEIA MAIS
7 filmes e séries com trilhas sonoras para quem curte hip hop
LEIA MAIS
4 apps e sites para descobrir rádios e músicas ao redor do mundo

E é nostálgico dessas batalhas. “Antigamente o pessoal fazia rima com sentido. Hoje eu vejo muito mais batalhas, mas o conteúdo me dá vontade de ir embora. Há MCs que não sabem nem cantar na base. Fico agoniado, não vejo flow, não vejo nada. Isso emburrece o público, o pessoal só sabe xingar”, reclama. “A Escola do Emicida, do Kamau, do General era bem melhor. Os caras liam muito, tinham referência. Os de hoje não leem, precisa de conteúdo”, diz.

Apesar da experiência, quando Erick toca na noite, evita fazer muita performance. “O público brasileiro não curte. Lá fora rola mais, você vai ver o DJ e é um show mesmo, do começo ao fim. Aqui não estamos acostumados”, diz.

Nos seus sets e na sua casa, ouve muita coisa além de hip hop e soul: MPB, jazz, músicas eletrônicas antigas, drum and bass. “Gosto de festa que posso tocar tudo isso. Festa que você toca o que quer é lindo”, diz. O que não rola, para ele, é funk carioca. “Pra mim tem que ter conteúdo, mensagem. Respeito quem ouve, mas não rola”, afirma.

Em 2017 Erick Jay tentará ser bi-campeão mundial. No ano seguinte quer ser campeão solo. Mas independente do resultado, em 2018, já se aposenta. Ele acredita que fez tudo o que queria ter feito. Além disso, ele segue dando workshops e aulas de DJ, além de tocar na noite, produzir discos, fazer grandes projetos e continuar na música.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
ESCOLHA DO EDITOR
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 205 [1] => 76 [2] => 12 [3] => 237 [4] => 97 [5] => 249 [6] => 222 [7] => 62 [8] => 157 [9] => 276 [10] => 259 [11] => 86 [12] => 267 [13] => 94 [14] => 68 [15] => 16 [16] => 167 [17] => 115 [18] => 186 [19] => 17 [20] => 102 [21] => 173 [22] => 238 [23] => 175 [24] => 92 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence