Fanzines e a paixão que edita, cria e constrói a cultura
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Fanzines e a paixão que cria, edita e constrói a cultura

Pedro Katchborian em 12 de março de 2017

Entre tantas cartas recebidas pelo jornalista Bento Araújo, uma se destaca pelo remetente: uma penitenciária. Sim, um presidiário escreveu para Bento. O motivo? Ele era o responsável pelo Poeira Zine, um fanzine dedicado à falar sobre música. O preso em questão era fã do Poeira Zine e pediu algumas edições para Bento.

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O sucesso que pula muros de prisões é reflexo do propósito dos fanzines: publicações movidas pela paixão de alguém por algum assunto. Fanzines, a mistura das palavras “fanatic e magazines”, são publicações sobre determinados assuntos feitas, produzidas e editadas por fãs. Bento, no caso, sempre foi fã de música. “Meu sonho era viver disso, mas logo percebi que seria difícil”, diz. Ainda assim, formou-se em jornalismo e viu na profissão uma maneira de viver o sonho de criança.

Ao perceber que as bandas que lhe interessavam tinham pouco espaço nas principais publicações do país criou o Poeira Zine, em 2003. A dificuldade no começo foi grande: sem entender de diagramação, penou nas primeiras edições. Durante os 13 anos seguintes, aprendeu e conseguiu tornar o Poeira Zine um dos fanzines mais respeitados do país.

Dando prioridade a outros projetos, Bento “hibernou” — como ele mesmo diz — o fanzine em abril de 2016, quando saiu a última publicação bimestral. Apesar disso, Bento ainda quer fazer publicações especiais, só que sem uma periodicidade específica.

A história dos fanzines

Quando o jogador de xadrez Russ Chauvenet cunhou o termo fanzine, em 1940, ele não sabia que aquilo que acabara de criar ia ajudar a construir a cultura e a contracultura mais de 70 anos depois.

Russ escreveu sobre fanzine na edição da sua própria revista, chamada Detours, em outubro daquele ano. Apesar do termo ter sido cunhado por Russ, a ideia de uma publicação feita por fãs é mais antiga ainda. Há registros de grupos literários nos Estados Unidos que se juntavam para publicar e comentar sobre poesia no século 19.

Aliás, foi nos Estados Unidos que os fanzines ganharam mais força. Quadrinhos, arte, esportes, ficção científica e principalmente música eram os temas mais explorados por fãs interessados em montar a sua própria publicação.

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Fanzines de música como Crawdaddy, de 1966, ajudaram a disseminar a cultura rock & roll mundo afora. Nos anos 60 e 70, haviam zines sobre diferentes estilos de música e até sobre artistas específicos. Nos anos 80, por exemplo, existiam cinco fanzines de Bruce Springsteen circulando ao mesmo tempo.

A relação entre fanzines e música vai além: o traço de contracultura dessas publicações se confundia com o movimento punk dos anos 80. Para Bento, isso tudo tem a ver com a liberdade dos zines. “Você pode fazer o que quiser, sem se preocupar com o mercado. As revistas tem esse lance comercial, de evitar posição política”, diz. “O fanzine tem liberdade total. Eu podia fazer um artigo de 16 páginas sobre uma banda que ninguém conhecia”, afirma.

No Brasil, os fanzines surgiram na década de 60. O primeiro deles foi O Cobra, lançado em São Paulo pela Associação Brasileira de Ficção Científica. Nas décadas seguintes, o movimento ganhou força: rock, quadrinhos e animes foram alguns dos temas abordados.

O sucesso prevaleceu e continua até hoje. A Feira Plana é a evidência disso: o evento costuma reunir admiradores dos fanzines e de outras publicações independentes. Depois de quatro edições no MIS, o evento chegou à Bienal do Ibirapuera, onde ocorre dos dias 13 a 19 de março de 2017. Neste ano, a feira também contará com uma ala para impressores e produtores de tintas. “A ideia é que esteja presente todo o ecossistema das publicações independentes“, diz Duda Porto de Souza, responsável pela comunicação da Plana.

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Duda ainda afirma que o público cresceu de 3 mil para 12 mil no último ano. “Vão jovens, famílias com crianças, estrangeiros…Todo tipo de público”, diz. A curadoria da Plana varia ano a ano, mas normalmente dá mais espaços para zines de arte e fotografia. Nesse ano, no entanto, há muita coisa dedicada à literatura.

O sucesso da Plana e de zines como o Poeira mostram que ainda há uma paixão pelo papel, mesmo com tudo se digitalizando aos poucos. Com a popularização da internet nos anos 2000, muita gente imaginava que os zines poderiam seguir um caminho que também era imaginado para os quadrinhos — o fim das publicações em papel. Não aconteceu. Bento acredita que o movimento acabou seguindo o caminho do vinil:

É algo saudosista, mas é como se fosse um oásis no bombardeio de informação digital.

Para ele, ter a publicação impressa em mãos é considerado algo especial por muita gente. Duda concorda. “Cada edição é única”, diz. “Você encontra o oposto de uma produção massificada”, completa.

Fanzines e a folkcomunicação

Essa ideia de estar fora do circuíto de editoras e bancas dá uma ideia de marginalidade aos fanzines, que acabam fazendo parte de uma contracultura. “Por serem produzidas à margem do mercado, sem fins lucrativos e com forte motivação comunitária, habilita os fanzines a se inserir na categoria de folkcomunicação, pois são porta-vozes de setores e expressões artísticas menosprezadas pela grande imprensa”, diz Henrique Magalhães, em mestrado para a Universidade Federal de Goiás.

Magalhães também reforça a ideia mostrada por Bento Araújo: “não há limite temático para os editores de fanzines”, diz. Esse aspecto da liberdade e da marginalização dão ao fanzine um caráter que nenhum tipo de publicação consegue preencher.

Por exemplo, os fanzines também tiveram publicações memoráveis e contribuições válidas para a cultura, mesmo estando à margem do mercado. O fanzine Search & Destroy, publicado entre 1977 e 1979, cobriu o nascimento do punk. Nele, V. Vale fez entrevistas com grandes nomes como The Clash e Patti Smith. Como a publicação não tinha fins lucrativos e valorizava somente a cultura, a originalidade das  entrevistas ficou para a história do jornalismo musical. Tanto que, em 2015, o jornalista Fábio Massari faz uma seleção dessas entrevistas em um livro chamado “Alguém Come Centopeias Gigantes?“.

O que move os fanzines?

Desde que surgiu em 2003, o Poeira Zine foi, aos poucos, ficando famoso. Com isso, surgiram os anúncios. Bento explica que lojas de discos anunciavam na publicação — renda que cobria os gastos com a impressão e ainda lhe dava dinheiro para viver. Mas, além do dinheiro, o que movia Bento a continuar com o projeto?

Ele elenca dois motivos principais. O primeiro deles é a repercussão e o feedback — como as cartas do prisioneiro. “Eu percebi que o Poeira tinha uma importância para as pessoas”, afirma. Além disso, a oportunidade de poder conhecer ídolos, cobrir bandas e festivais. “Isso me movia muito”, afirma.

Aliás, como o fanzine se trata de uma publicação pessoal e, no caso do Poeira Zine, Bento até diz que era um “reflexo de sua personalidade“, as edições costumam ter efeitos diferentes em bandas e cantores. Afinal, os músicos eram capazes de reconhecer a dedicação e a paixão de Bento pelo o que ele cobria e escrevia.

“Eu percebia muito”, diz. Bento, que já cobriu eventos por jornais como Estadão e Folha, além da revista Rolling Stone, diz que era completamente diferente quando ia cobrir pelo fanzine. “Existem dois casos emblemáticos: quando fui para Budapeste entrevistar a banda húngara Omega, em 2014. Eles conheceram o meu trabalho e piraram”, diz.

O outro caso é mais emblemático ainda, quanto ele foi entrevistar Lenny Kaye, guitarrista de Patti Smith — e também autor do seu próprio zine, chamado Obelisk. Na oportunidade, Bento conversava com Lenny e logo veio o empresário falando que Patti Smith queria conhecê-lo pelo trabalho com o Poeira Zine.

Agora, Bento aproveita toda a credibilidade e conhecimento que ganhou com o Poeira para lançar outras publicações independentes: arrecadou mais de R$80 mil para lançar o livro “Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975)“. O objetivo do livro foi mostrar que existiu rock psicodélico feito no Brasil. Depois do sucesso do projeto, Bento já planeja lançar o seu segundo livro em breve.

O jornalista acredita na força das publicações independentes. “Muita gente me pergunta: e se o Poeira Zine tivesse nas bancas?”, diz. “Eu acho que se tivesse ido, não teria dado certo. Esse mercado é muito ingrato — há muitos impostos e o que sobra para você no final não é quase nada”, destaca.

O mesmo é dito por Duda, que fala do enfraquecimento das grandes livrarias: a saída da Fnac do Brasil, anunciada recentemente pela empresa, além da negociação de venda da Livraria Cultura para a Saraiva. “O movimento independente vai ganhando cada vez mais força. Esse ano começaram a aparecer várias feiras de publicações independentes”, diz. “Você tem essas livrarias saturadas de best-seller, sem as publicações únicas”, completa. Os fanzines são o oposto disso e, aparentemente, as pessoas ainda se interessam.

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