O feminismo brasileiro em 2017: correntes e ideias
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O feminismo brasileiro em 2017: correntes e ideias

Camila Luz em 25 de março de 2017

O movimento feminista é plural, formado por vozes que propõem diferentes formas de chegar a um mesmo objetivo: a igualdade de gênero. Há quem diga que o feminismo perde força na discordância de suas militantes, mas, por outro lado, é uma forma de garantir que todas as necessidades sejam ouvidas.

A jornalista Vivyane Garbelini defendeu em 2017 sua dissertação de mestrado sobre o discurso feminista na revista Elle. “Existe um discurso feminista próprio da Elle, ou ela só fala sobre feminismo? Peguei um recorte entre 2010 e 2015 e selecionei as capas que tinham a palavra ‘feminismo’ impressa e as analisei”, conta.

Vivyane também analisou outras edições que não citavam a palavra, mas falavam sobre temas relacionados, como diversidade e identidade de gênero. Ela percebeu que a revista não expunha ideias de apenas uma corrente feminista, mas sim de várias, como feminismo liberal, transfeminismo, feminismo negro e interseccional.

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“O especial que traz o manifesto feminista, por exemplo, está assinado por Clara Averbuck, Djamilla Ribeiro, pelo Coletivo Blogueiras Negras. Não são militantes de uma só vertente”, afirma. “Aí a revista traz uma edição especial sobre música. São convidadas Clarice Falcão, Bárbara Eugenia, Karol Conka”, completa. A conclusão da jornalista foi que a revista Elle traz várias vertentes do feminismo que dialogam. No Brasil, como um todo, ocorre o mesmo.

O feminismo no Brasil em 2017

Para Vivyane, as mulheres que se consideram feministas no Brasil ainda são minoria. “A maioria ainda tem um problema com a palavra ‘feminista’. Muitas consideram que é depreciativa. Por isso é importante que a valorizemos”, opina. “Eu analiso que, no senso comum, ainda existe uma relutância com a palavra e com o próprio movimento. Mas ele está crescendo – principalmente quando falamos de feminismo liberal e feminismo negro”, completa.

A economista Itali Collini, fundadora do Genera (Núcleo de Pesquisa em Gênero e Raça), da USP, concorda e afirma que muitas mulheres preferem não se assumir feministas, ainda que ajam como tal. Em artigo no Huffington Post Brasil, ela faz uma análise dos rótulos e estereótipos atribuídos desde o século 20, quando as sufragistas lutavam pelo direito ao voto.

Genera

Genera Foto: Arquivo Pessoal

Ainda hoje, as feministas são muitas vezes colocadas como mulheres mal amadas, desleixadas e “reclamonas”, em busca de privilégios apenas para seu grupo.  No artigo, Itali destaca situações como a da cantora Marília Mendonça e da Chef Dayse Paparoto, vencedora do programa MasterChef. Ambas têm visões progressistas sobre a mulher na sociedade e percebem as discriminações de gênero, mas rejeitam o feminismo.

“Pensa comigo: você está mandando bem no que faz e sendo elogiada. Como você vai assumir um rótulo tão pejorativo como o feminismo? Pessoas que antes gostavam de você vão acabar te criticando”, explica. “As atitudes delas (Marília e Dayse) tinham tudo a ver com a conquista de espaços pelas mulheres. Uma coisa que falo sempre é que a gente precisa se dizer feminista justamente para que as pessoas próximas de nós saibam quebrar estereótipos”, completa.

O feminismo ganhou força no Brasil na década de 1960, durante a segunda onda feminista. O movimento andava de braços dados com a redemocratização após o golpe militar e era formado, sobretudo, por mulheres brancas de classe média e alta. Meio século depois, o feminismo no Brasil se amplificou e se desdobrou em vários movimentos, encabeçados por mulheres de muitas origens.

Correntes do feminismo

Feminismo liberal

Para Itali, o feminismo liberal é uma porta de entrada. Seu principal foco é igualar direitos entre homens e mulheres, como o direito de estudar, de votar e de fazer as próprias escolhas. A liberdade sexual e a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho também são pautas muito discutidas.

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As feministas liberais acreditam na conquista de direitos por vias legais e políticas. Portanto, a ascensão de mulheres no governo, meios de comunicação e cargos de liderança em empresas são fundamentais.

Para a mulher branca e de classe média, lutar por liberdade sexual e igualdade de oportunidades no mercado de trabalho faz sentido e é indispensável. Mas há outras questões que também devem ser levadas em conta. O feminismo liberal diz que o movimento é sobre liberdade de escolha, mas é complicado falar sobre escolha sem olhar para as origens econômicas e sociais de cada um.

“O feminismo liberal fica um pouco na superficialidade, faltam algumas peças. Por exemplo, a maioria das prostitutas hoje são mulheres negras ou nordestinas. Entrar para a prostituição não é ‘só uma escolha’, pode ser uma necessidade. Então é preciso tomar cuidado com esse discurso”, diz Itali.

Feminismo Interseccional

“No primeiro contato com o feminismo, estamos buscando liberdade e igualdade de direitos. Depois, damos mais um passo e entendemos qual o contexto de nossas escolhas. O interseccional é um aprofundamento muito interessante porque olha para essas características”, explica Itali.

O feminismo interseccional é considerado pós-moderno e engloba vários movimentos, como o feminismo negro e o transfeminismo. Para as feministas interseccionais, as mulheres não formam um grupo homogêneo e, por isso, são oprimidas em diferentes graus de intensidade. Homossexuais sofrem preconceito por sua orientação sexual, enquanto negras precisam lidar com o racismo, a solidão amorosa e também com as barreiras econômicas, já que cor de pele e classe social estão relacionados.

Há, ainda, feministas que vivem realidades poucos discutidas pela mídia, como as feministas indígenas. O feminismo interseccional leva em conta a origem social, econômica e cultural de cada grupo e acredita que eles defendem interesses diferentes.

Feminismo radical

Se você pensou em uma feminista raivosa e que “odeia macho”, pensou errado. O termo “feminismo radical” vem de “raiz”, ou seja, seu objetivo é entender qual é a raiz do machismo.

Para as feministas radicais, o racismo nasce no sistema de gêneros. A raiz da opressão seria, então, a existência de papéis inerentes ao sexo. Por exemplo, mulheres têm mais empatia e são mais frágeis, enquanto homens são mais assertivos. Diante dessa classificação, cada um  recebe funções específicas, como cuidar dos filhos ou prover financeiramente a família.

As feministas radicais são consideradas abolicionistas, ou seja, querem o fim do sistema de gêneros, para que os estereótipos deixem de ser reproduzidos.

Feminismo negro

O feminismo negro começou a ganhar força no Brasil durante os anos 1980, junto com o movimento negro. Durante a década seguinte, a terceira onda feminista deu voz para mais mulheres que não são brancas ou não fazem parte das camadas mais altas da sociedade.

Djamilla Ribeiro, Gabriela Moura e Stephanie Ribeiro são alguns dos principais expoentes do movimento hoje. O feminismo negro acredita que suas integrantes sofrem uma dupla opressão que não é representada por outros tipos de feminismo. Elas sofrem preconceito religioso, são hiper sexualizadas, enfrentam solidão e o genocídio. Muitas feministas negras são adeptas do feminismo interseccional, que leva em conta as características de cada grupo e considera diferentes origens.

Transfeminismo

O transfeminismo é conduzido por mulheres transexuais, ou seja, mulheres que nasceram com a biologia masculina, mas têm identidade de gênero feminina. Elas buscam visibilidade dentro do movimento feminista e brigam inclusive pelo direito de sobreviver, já que pessoas transgênero são alvo constante de violência dentro da sociedade.

Transfeminismo X Feminismo radical

Uma das principais lutas das transfeministas é pelo reconhecimento dentro do movimento feminista. Mas há um ponto de conflito com as radicais, que propõem a abolição das construções de gênero.

Vivyane explica: “para as radicais, o problema é que se construa um gênero. Elas repudiam a hierarquia e defendem que as pessoas possam se expressar sem a existência de um gênero. Por isso, não faria sentido uma mulher trans participar do movimento, já que essa mulher está adotando características femininas construídas socialmente”.

Muitas feministas radicais são vistas como transfóbicas. Além disso, parte delas não considera que a mulher trans tem legitimidade para fazer parte do movimento, já que nasceu com órgãos sexuais masculinos e foi criada como um menino na infância.

Para as radicais, pessoas trans são como um reforço dos estereótipos. Provavelmente a criança não se encaixa no gênero que foi imposto para ela, mas já querem classifica-la em uma outra caixinha. Se você não se sente homem, então é mulher”, explica Itali. “Muitas vezes, principalmente nas redes sociais, essa questão é levantada de uma maneira praticamente transfóbica. Elas [as radicais] querem separar, só aceitam mulheres que nasceram com vaginas, pois querem tratar dos problemas das pessoas que foram socializadas como meninas”, completa.

No entanto, pessoas transgênero enfrentam questões muito complexas desde a infância. São consideradas anormais por boa parte da sociedade e travam uma luta interna. Imagine nascer com um pênis e ser tratada como um menino, mas não se identificar com essa imagem de si mesmo. Difícil, não?

Diversidade de opiniões

Mas afinal, a discordância é boa ou ruim? Para Itali, há dois lados. O negativo é que o estereótipo sempre ganha mais visibilidade e é pejorativo, enquanto assuntos importantes tratados dentro do movimento não recebem o espaço que deveriam na mídia.

O positivo é que a existência de diferentes pontos de vista nos leva a refletir sobre problemas que não fazem parte de nossa realidade, mas são igualmente importantes. “É muito bom que as radicais contestem o sistema de gêneros. Quando as radicais contestam a existência de crianças trans, isso me faz conversar com pessoas trans para entender o lado delas. A existência de visões diferentes dentro do feminismo te força a fazer análises mais complexas”, pontua a economista.

Por exemplo, há feministas que são totalmente contra a regularização da prostituição, enquanto outras são a favor pois vivem essa realidade e sabem que, na ilegalidade, caem nas mãos de cafetões e sofrem violência. Itali questiona:

Mas não é estranho que a maioria das prostitutas sejam mulheres e isso sirva aos interesses masculinos? É preciso questionar. Ser militante é tentar construir junto alguma coisa, e muita gente vai divergir sobre como fazer isso. Isso é inerente a todos os movimentos sociais. Todos concordam que o bolo deve ser repartido entre toda a população. Mas qual a melhor forma de fazer isso?

Para Vivyane, a discordância é importante pois traz diversos olhares para a mesma questão e permite que mais pessoas sejam incluídas em uma mesma luta. Afinal, é através da troca de ideias que a sociedade evolui. Mas quando essas discordâncias não são usadas para construir algo melhor, surge um problema.

“O debate sempre deve render algo a mais. É preciso construir uma ponte entre as vertentes para gerar uma luta conjunta”, afirma. “Vamos supor que haja uma marcha geral das mulheres. Esse tipo de ação tem que ter um foco. Mesmo com discordâncias, é necessário que existam marchas e movimentos que rendam algo de bom para todas”, completa.

Para a jornalista, a sociedade hoje se divide em bolhas e cada um vive olhando para o próprio umbigo. As discussões ocorrem entre pessoas que têm as mesmas opiniões, seguem veículo de notícias que têm a mesma ideologia e assim por diante. Mas é preciso furar a bolha e ouvir o que indivíduos de outras origens têm a dizer. “A feminista tem que ser estratégica. Ela precisa fazer alianças para ocupar espaços e realmente agir. A discordância acaba atrapalhando essas ações”, finaliza.

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