Como os filmes e séries incitam discussões e mudam nossa realidade
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Como filmes e séries incitam discussões e mudam nossa realidade

Pedro Katchborian em 13 de abril de 2017

A vida imita a arte? Ou a arte nos faz repensar a vida e tudo que a permeia? Um estudo feito por Michelle C. Pautz, professora de ciência política da Universidade de Dayton, mostrou que filmes podem, de fato, influenciar a opinião das pessoas. Pautz pediu para estudantes preencherem um questionário sobre suas visões de governo antes e depois de assistirem aos filmes “A Hora Mais Escura” e “Argo”. Cerca de 20 a 25% dos participantes acabaram mudando de opinião após verem os longas.

Em entrevista ao The New York Times, Pautz afirma que os mais jovens são mais facilmente influenciados pelas produções. “Pessoas mais jovens, particularmente adolescentes, são muito mais propensos a serem impactados do que adultos porque eles ainda estão desenvolvendo e moldando suas visões de mundo”, afirma. “Como eles ainda estão sendo socializados politicamente, eles são mais propensos a absorver qualquer tipo de influência, incluindo influências de filmes”, completa.

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Patrícia Simone, psicóloga e dona do blog Psicologia e Cinema, usa produções cinematográficas com diferentes pacientes em tratamento e sabe que os filmes podem exercer influência para as pessoas, assim como uma música ou um quadro. “Qualquer obra de arte tem a tendência de influenciar independente da intenção do autor ou diretor“, diz.

No entanto, ela acredita que essa influência das produções em visões de mundo não pode ser atribuída totalmente aos filmes. “Somos responsáveis pelo o que falamos e não pelo o que o outro ouve”, diz. Para Patrícia, uma produção só exerce tanta influência no pensamento das pessoas por diferentes fatores: além de já existir uma predisposição do espectador, ela também chama a atenção da “sorte ou azar” do momento, com a trama da produção tocando em um tema em alta — como o governo americano, no caso do estudo.

A psicóloga também lembra que algumas das obras já têm essa intenção de modificar pensamentos. “Existe a fórmula certa na hora certa para transformar a massa. Existe a possibilidade de mensagem subliminar e de programações estudadas”, afirma.

Mudanças para tubarões e alienígenas

Mais do que influência, os filmes podem acabar mexendo em todo o nosso imaginário, ainda mais quando os assuntos são misteriosos. No verão de 1975, “Tubarão” chegou às telas de cinema e faturou mais de US$ 470 milhões ao redor do mundo, lançando a carreira de Steven Spielberg. Há quem considere a produção “o primeiro blockbuster de todos”.

Atingindo um público jovem e lidando com um assunto tão intrigante quanto o tubarão branco, o longa foi capaz de influenciar o imaginário dos espectadores. Até hoje, a simples, porém aterrorizante, trilha sonora de “Tubarão” é atrelada a tubarões assassinos, que criaram um quase inconsciente medo do mar. No entanto, as consequências foram terríveis para os animais: políticos na Austrália utilizaram o filme para passar uma lei que permite que os animais sejam mortos sem razão aparente.

Oliver Crimmen, um dos curadores do museu de História Natural de Londres, afirma que o longa foi um ponto de virada para os tubarões brancos. “Eu realmente vi uma mudança no público e até na percepção científica sobre os animais quando o livro de Peter Benchlay foi lançado e posteriormente foi feito um filme”, diz para a BBC. Para ele, o problema foi que o longa tratou os animais como máquinas que só têm a intenção de matar.

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A consequência foi tão ruim para os bichos que o próprio Peter Benchley ficou perturbado com o assunto. “Sabendo o que sei hoje, eu nunca poderia ter escrito aquele livro hoje”, disse.

O arrependimento foi tanto que ele passou boa parte de sua vida fazendo campanhas para a proteção dos tubarões. Pesquisas mostram que entre 1986 e 2000 a população dos animais diminuiu drasticamente: 89% dos tubarões cabeça-de-martelo e 79% dos tubarões brancos.

Um fenômeno parecido (mas não tão devastador) aconteceu com o tema alienígenas. As produções que retratam ETs acabaram criando uma imagem de como seriam esses seres — verdes, cabeçudos e pequenos, por exemplo. “Na mente humana existe a chamada falsa memória. É quando incorporamos, sem perceber, o conteúdo do que assistimos ou ouvimos e, então, repetimos como se fosse nosso. Um filme, por exemplo, pode ser vivido como uma lembrança e não como ficção”, diz Wellington Zangari, psicólogo de Psicologia da Religião da USP, para a Super Interessante.

Filmes como estopim de debates

Muito além de exercer influência, essas produções podem acabar incitando discussões que estavam adormecidas. O caso mais recente é a série “13 Reasons Why”, da Netflix. Debatendo temas delicados como bullying e suicídio, a produção tem sido tema de discussão de rodas de amigos, psicólogos, adolescentes e cineastas.

Por lidar com o assunto de forma tão aberta, há quem diga que a série pode incentivar adolescentes, enquanto outros veem o debate provocado pelo seriado como necessário. De qualquer forma, a série promove a questão: como a ficção deve lidar com o suicídio?

“Uma série como essa tem a intenção de ampliar o debate e que se fale mais desse assunto”, diz Patrícia. Para ela, a produção não será responsável e não irá justificar nenhum acontecimento. “A obra não é determinante, mas se a pessoa já estiver com uma pré-disponibilidade…Isso é psicologicamente construído”, completa.

Sobre os motivos para a série estar sendo tão debatida, ela volta a reforçar que tem muito a ver com o timing. “Já existiram outras produções com trama parecida, mas o assunto tem sido muito falado por que tem acontecido mais suicídios”, afirma.

O estudo de Michelle Pautz também destaca esse potencial dos filmes de promover debates, funcionando como uma faísca para uma discussão maior. Uma produção como “Selma”, longa que discute o racismo e conta a história de Martin Luther King, pode ser um “mecanismo maravilhoso para discutir tópicos polêmicos na sociedade, promovendo uma maneira de discutir os assuntos sem fazê-lo diretamente”, afirma.

Sobre como estamos preparados para receber a informação presente nas séries, Patrícia lembra que é uma via de mão dupla. “Tem a ver com o que você está preparado para ouvir. Às vezes um filme do mesmo assunto impacta de uma maneira diferente. Assim como um livro ou uma música, a produção pode mudar a vida da pessoa”, diz.

Em seu consultório, a psicóloga costuma passar filmes para que pessoas se identifiquem com situações e personagens, visando uma percepção melhor no tratamento de diferentes doenças.

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