Do Haiti ao Brasil: os 5 mil quilômetros de sonhos dos Pérolas Negras
Perolas Negras
Foto: Vitor Madeira
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Do Haiti ao Brasil: os 5 mil quilômetros de sonhos e saudades dos Pérolas Negras

Pedro Katchborian em 24 de fevereiro de 2017

Me espera. Me espera porque eu sei que vocês têm muita saudade de mim. Mas me espera porque é para ajudar vocês que estou aqui”. A fala é de Badio Stanley, em mensagem para a família. Ele é um dos jovens haitianos que chegaram ao Brasil com um par de chuteiras e muita saudade na mala. Acostumadas a jogar em Porto Príncipe, no Haiti, elas agora desfilam no gramado de Paty do Alferes, no Rio de Janeiro, onde fica o Centro de Treinamento dos Pérolas Negras, time de futebol com haitianos criado pela ONG Viva Rio.

Pérolas Negras

Atleta Badio Stanley Foto: Paula Martinez Mello.

Na época em que a decoração de Natal ganha as ruas e pessoas começam a anotar as resoluções de Ano Novo, os Pérolas Negras recebem os holofotes: desde 2016 eles disputam a Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal campeonato de juniores do Brasil que é disputado sempre nos primeiros dias do ano. Durante o campeonato, repórteres e transmissões de TV dão uma atenção que esses jovens nunca tiveram. Os olhos voltados para esses garotos de até 20 anos representam oportunidades e sonhos. “Todos têm uma mesma missão: enviar dinheiro para as famílias”, comenta Marcos Badday, gerente de futebol da equipe desde maio de 2016.

O projeto da ONG Viva Rio no Haiti começou há mais de uma década, em 2004, na capital Porto Príncipe. Até então, a iniciativa passava longe do profissionalismo. “Era um entretenimento em um país altamente carente. Uma diversão, um lazer”, completa Badday. Em 2008,  o time dos Pérolas Negras foi criado, com intenção de profissionalizar os atletas. Mas tudo mudou no dia 12 de janeiro de 2010, quando o país foi atingido por um terremoto de grande magnitude que vitimou mais de 316 mil pessoas. O projeto foi adiado e só inaugurado em 2011, com a ajuda do empresário George Soros.

A iniciativa continuou somente no Haiti até dezembro de 2015, quando os atletas ganharam as manchetes ao virem para o Brasil para a disputa da Copa São Paulo de Futebol Júnior, que aconteceu em janeiro de 2016. Foram duas derrotas por 2 a 1, mas o desempenho pouco importava. A equipe ganhou fama nacional e foi abraçada por todo o Brasil.

Foto: Vitor Madeira

Desde então, há duas frentes de trabalho: uma no Haiti, onde há um trabalho comunitário com dezenas de garotos, e uma no Brasil, mais profissionalizante, em Paty do Alferes, onde foi construído um CT para os atletas treinarem. Marcos explica que alguns dos garotos que se destacam no Haiti são enviados para o Brasil.

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Os Pérolas Negras trabalham com duas categorias — o time sub-17 e o time sub-20. Em setembro de 2016, o time conseguiu filiação na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), que liberou a inscrição de atletas que não entram na cota de estrangeiros para a disputa da Série C do Campeonato Carioca. Portanto, agora Marcos e o restante da comissão precisam montar o elenco profissional até julho, quando começa o campeonato. A grande maioria do elenco será de haitianos, mas a ideia é que brasileiros também façam parte da equipe.

O trabalho no futebol tem rendido frutos para alguns jovens: Waby Angelus e Jacko Metellus foram para o sub-20 do Goiás. Também houve interesse de São Paulo e Corinthians por outros jogadores, mas a comissão técnica optou por manter os garotos no clube, pois eram recém-chegados e ainda não estavam totalmente adaptados.

A saudade dos Pérolas Negras

É natural que adolescentes sintam falta de casa — e isso acontece com os Pérolas Negras. Apesar de inseridos na cultura brasileira, é comum que haja momentos em que a saudade fala mais alto. Paula Mello, uma das responsáveis pela educação dos atletas, explica que isso acontece, mas não com tanta frequência.

A saudade está sempre presente, mas eles têm um contato diário com a família. Não é algo periódico, é todo dia”, explica. “Às vezes eles ficam mais sensibilizados com essa saudade, às vezes não”, completa. Todos os garotos recebem celulares para manter o contato com os familiares.

Pérolas Negras

Foto: Vitor Madeira

Desde que o projeto se iniciou, somente um garoto acabou voltando para o Haiti. Quem conta é Marcos Badday. “Nós tentamos mantê-lo aqui por 2 ou 3 meses, mas ele acabou sentindo muita falta de casa e voltou para o seu país”, afirma. Badday explica que geralmente os jovens vão uma vez por ano para o Haiti.

Paula elogia o comportamento dos garotos. “Eles são muito corajosos e precisam amadurecer fora de casa. Imagine você ou eu passando por uma situação como essa, em que é necessário lutar muito fortemente por um futuro”, diz. As famílias reconhecem o esforço dos garotos e incentivam que eles venham ao Brasil e busquem uma vida melhor no futebol.

Mais do que um projeto de esporte

A ONG Viva Rio e os envolvidos no projeto dos Pérolas Negras sabem da dificuldade de se tornar profissional no futebol, além da dificuldade da grande maioria dos atletas que disputam em alto nível — cerca de 60% dos jogadores profissionais recebem até um salário mínimo. Por isso, a iniciativa tem outro foco muito grande: a educação. “O projeto é focado em inserção social através do esporte e da educação”, comenta Paula.

Os envolvidos no projeto entendem que o futebol é a questão principal, mas sabem que a carreira do jogador é curta e, independente do sucesso do atleta, há a preocupação com o desenrolar da carreira em todos os níveis. Paula detalha:

Nosso conceito de sucesso é o sucesso como cidadão. Queremos que eles deem retorno para a sociedade. Ultrapassa a questão do sucesso no futebol.

Para isso, todos os jogadores estudam em Paty do Alferes. “A gente trabalha com esse leque de opções e horizontes diferentes, considerando o sucesso ou não do atleta como profissional”, explica.

A rotina dos jovens é dividida em treinos e aulas. São dois treinos diários (um tático e um físico) e quatro horas de aulas. O currículo escolar é o da grade regular de ensino, mas também há outras aulas direcionadas e opcionais, como media training e informática.

A educação é o pilar fundamental. Trabalhamos primeiro a formação básica obrigatória e depois várias opções profissionalizantes. Estamos no primeiro ano do projeto e temos alguns atletas que têm interesse em desenvolver competências na área de informática, design e até como cabeleireiro”, diz Paula. Marcos detalha que dois haitianos chegaram para tentar a sorte como jogadores e acabaram seguindo outras carreiras, ambas envolvidas com futebol. Um dos garotos virou auxiliar técnico da equipe, enquanto outro é preparador de goleiros.

Empatia de todos

O comportamento exemplar, o carisma e a história de cada haitiano causam empatia em qualquer um que passe pelo caminho dos Pérolas Negras. Nas duas vezes em que o time disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior, a torcida local fez questão de torcer pelos haitianos.

Em 2016, os jogos foram na Rua Javari, na Mooca, em São Paulo, casa do Juventus. Em 2017, as partidas aconteceram no estádio Nicolau Alayon, também na capital. Neste ano, os Pérolas Negras venceram a sua primeira partida, por 2 a 0, contra o Nacional-SP.

Jogo Pérolas Negras x Nacional-MG Foto: Vitor Madeira

Marcos explica que tal admiração pelos atletas do Haiti tem ajudado os jogadores a conseguirem chances em outros lugares. “Os brasileiros poderiam enxergá-los como concorrentes, mas não é o caso”, diz Marcos. O gerente de futebol ainda usa uma frase de Ruben César Fernandes, diretor executivo da ONG Viva Rio, sobre a recepção dos haitianos no Brasil. “Enquanto o mundo está construindo muros para os imigrantes, o Brasil faz o contrário“, afirma.

Por gerar tanta empatia, os jovens acabam sendo bem recebidos, o que facilita a inserção social, objetivo principal do projeto. “Eles já estão totalmente inseridos. Em Paty do Alferes eles são muito queridos pela comunidade”, diz Paula. “Dentro das limitações que uma postura e uma rotina de atleta permite, eles saem, conhecem pessoas e tem um círculo social”, completa.

Tanto Paula quanto Marcos utilizaram a mesma palavra ao responder sobre como é trabalhar com os haitianos: gratidão. “Eu sou muito privilegiada de trabalhar com eles. Tudo que é proposto para eles é recebido de maneira criativa, calorosa e interessada”, afirma Paula. Marcos reforça: “eu aprendo muito com eles”.

O futuro esportivo dos Pérolas Negras é claro: agora inscrito na Série C do Campeonato Carioca e com duas categorias juvenis, os jovens poderão jogar regularmente.

Na parte educacional, os atletas devem ter novidades em breve. “Devemos ampliar o oferecimento de cursos profissionalizantes”, conta Paula. A ideia também é acompanhar os atletas que acabarem indo para os outros clubes e desenvolver o potencial de coaching fora dos Pérolas Negras. O mais ambicioso, no entanto, é o projeto revelado por Marcos Badday. A ideia é fazer os Pérolas Negras um time global de refugiados, recebendo atletas de países ao redor do mundo.

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