Livro trazia feminismo para crianças na década de 1930
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Foto: Reprodução/Livro
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“O homem que quis fazer as tarefas da casa”, um livro feminista infantil

Kaluan Bernardo em 30 de setembro de 2016

Em 1935 o mundo era um lugar bem diferente e as mulheres tinham ainda menos direitos do que hoje. Mesmo assim, algumas artistas desafiavam o status quo e questionavam os tabus da sociedade em que viviam. Esse foi o caso de Wanga Gág, (1893-1946), autora de um dos primeiros livros a falar de feminismo para crianças.

capa do livro Gone is Gone: or The History of the Man Who Wanted To Do Housework”

Livro Gone is Gone: or The History of the Man Who Wanted To Do Housework”

Estadunidense, o penúltimo livro de Wanda foi “Gone is Gone: or The History of the Man Who Wanted To Do Housework” (“Feito é Feito: ou a História do Homem que Quis Fazer as Tarefas de Casa”, em tradução livre), publicado em 1935, duas décadas antes da segunda onda de feminismo, como bem nota Maria Popova no site Brain Pickings.

Tradutora, escritora e ilustradora, Wanda criou não só a narrativa como as ilustrações do livro em que conta a história de Fritzl e Liesi, marido e mulher que resolvem trocar de papéis por um dia.

No livro, ambos trabalhavam arduamente todos os dias, mas Fritzl, o marido, sempre reclamava que seu trabalho era mais cansativo. Mais do que isso, ele ainda dizia que o trabalho de sua esposa, Liesi, era fácil demais. Veja no trecho abaixo, traduzido por nós:

Ambos trabalhavam duro, mas Fritzl sempre pensava que ele trabalhava mais duro. Às noites, quando ele chegava em casa depois do trabalho, ele se sentava, esfregava sua cara com seu grande lenço vermelho, e dizia “Hu! Como estava quente o sol hoje, e quão duro eu trabalhei, Mal sabe você, Liesi, como é o trabalho de um homem, mal sabe você! Seu trabalho não é nada”.

“Ele também não é fácil”, disse Liesi.

“Também não é fácil!”, resmungou Fritzl. “Tudo o que você tem que fazer é enrolar e distrair-se pela casa um pouco — com certeza não há nada de difícil nessas coisas.”

Cansada de ouvir tal discurso, ela propõe uma troca: por um dia ela vai ao campo e ele cuida da casa. O marido topa o desafio, achando que vai ser fácil, mas logo percebe que estava completamente enganado.

ilustração de homem cuidando da casa

Foto: Reprodução

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Ele passa a fazer uma série de trapalhadas, destruindo a casa, quase perdendo a vaquinha e sua filha em uma série de situações engraçadas. De confusão em confusão, ele se afunda no caos até que sua esposa chega em casa e percebe a cena caótica.

Fritzl estava se afogando no caldeirão de sopa e é salvo por Liesi — invertendo o papel da “donzela a ser salva”. A história acaba com um diálogo dos dois, que também traduzimos logo abaixo:

“Não, não, meu homem!” disse Liesi. “É assim que você mantém a casa?”

“O Liesi, Liesi!”, gaguejou Firtzl. “Você estava certa — o trabalho que você faz ‘não é nada fácil’”.

“Ele é um pouco difícil no começo,” disse Liesi, “mas amanhã talvez você faça melhor.”

“Não, não!”, resmungou Fritzl. “O que se foi se foi, e meu trabalho nesse dia também. Por favor, por favor, minha Liesi — deixe-me voltar a meu trabalho nos campos e eu nunca mais direi que o meu é mais difícil que o seu.”

“Então está bem”, disse Liesi, “se for assim, com certeza podemos viver em paz e felicidade para todo o sempre.”

E assim foi.

Colocando em perspectiva e considerando que foi publicado em uma época em que as mulheres tinham que ficar em casa cuidando do lar e mal podiam pensar em ter uma carreira, o livro ajudava a questionar os papéis de gênero e mostrar como os estereótipos eram limitantes. O livro não tem tradução em português, mas pode ser encontrado em versão física ou digital na Amazon.

Quem foi Wanda Gág, além do feminismo

Apesar de sua obra, Wanda Gág não é tão lembrada pelas suas ideias feministas, mas principalmente pelas suas ilustrações infantis. Seu livro mais famoso “Millions of Cats” (“Milhões de Gatos”, em português), lhe rendeu os prêmios Newbery e Lewis Carroll.

A obra é o livro infantil ilustrado mais antigo ainda impresso. Com apenas 32 páginas, ela desenhou diversos gatinhos para a história de um casal de idosos que, ao perceberem sua solidão, saem em busca de felinos.

Ela também é conhecida por ter traduzido do alemão ao inglês algumas obras dos Irmãos Grimm. Seu trabalho inspirou grandes nomes, como Maurice Sendak, autor de “Onde Vivem os Monstros”.

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