Editoras apostam em livros LGBTQ voltados ao público jovem
Livros LGBT - Cínthia, Augusto e Vinícius
Cínthia Zagatto, Augusto Alvarenga e Vinícius grosso Foto: Arquivo Pessoal
Unplug > Inspire-se

Editoras apostam em livros LGBTQ voltados para o público jovem

Camila Luz em 28 de junho de 2016

Livros LGBTQ voltados para o público jovem adulto vêm ganhando espaço dentro de editoras e livrarias. Sucessos como “Will & Will”, dos americanos John Green e David Levinthan, provam que leitores estão ansiosos por histórias com as quais se identifiquem e que os ajudem a entender a própria sexualidade. No Brasil, livros LGBTQ também atraem o público jovem adulto.

“Entro na Saraiva, no dia dos namorados, e a primeira coisa que vejo exposta é o livro ‘1 + 1 – A Matemática do Amor’, de Augusto Alvarenga e Vinícius Grossos. Logo depois, me deparo com ‘Lucas e Nicolas’, do Gabriel Spits”, conta a escritora Cínthia Zagatto. Em breve, ela irá publicar seu próprio livro LGBTQ, “Sake”. “A sessão LGBT ainda é pequena, mas agora os livros estão bem expostos. Essa não é uma coisa que acontecia anos atrás”, completa.

Augusto Alvarenga conta que decidiu escrever “1 + 1 – A Matemática do Amor” pela questão da representatividade. “Fora do país, há autores famosos que investem em livros LGBTQ. No Brasil, não”, explica. “Queria furar o padrão da literatura nacional. Então decidi escrever sobre um tema com o qual leitores fossem se identificar”.

A busca por histórias ficcionais que abordem questões relacionadas à sexualidade, principalmente durante a adolescência, não começou em 2016. Há dez anos, fanfics slash faziam sucesso na internet. Fanfics são obras ficcionais inspiradas em pessoas reais, como integrantes de bandas, ou em personagens de livros e filmes. Slash é o termo usado para designar a temática gay.

O LGBTQ na internet

Assim como muitos outros adolescentes que viveram no início dos anos 2000, o assunto sexualidade não tinha muito espaço na casa de Cínthia. A questão só chamou sua atenção quando descobriu as fanfics slash. “Em 2004, conheci minha banda preferida, o Simple Plan. Comecei a procurar coisas sobre ela na internet e cai em fanfics. Em um primeiro momento, não sabia que eram histórias ficcionais. Pensava que as meninas realmente conheciam os caras”, conta.

Acabou caindo em uma comunidade no Orkut chamada Pierre ❤ David. Lá, principalmente meninas escreviam fanfics slash sobre os dois integrantes do Simple Plan. “No começo, achei um absurdo. Como assim uma história sobre os dois se pegando se nem gay eles são?”. Leu os dois primeiros capítulos e acabou gostando.

Era uma história enorme, com mais de 200 páginas. Quando terminei de ler, percebi que era ok duas meninas se gostarem, ou dois caras se gostarem.

Nas fanfics, o homossexualismo era tratado como algo normal, cotidiano. “Gira uma chavinha na sua cabeça e você fica se perguntando por que sua família não fala sobre isso, nem seus amigos, e por que você não achava isso tão comum”, explica. “Esse foi o meu primeiro contato. É engraçado porque eu gostava muito de ler autores como Dan Brown e Meg Cabot, e todas as histórias eram hétero. Mas na internet, lia LGBTQ”, conta.

Por 10 anos, leu e escreveu fanfics slash, principalmente sobre Simple Plan. Postava em comunidades no Orkut. Por volta de 2009, quando a rede social deu uma caída, ficou sem ter onde postar. Nesse meio tempo, a banda também começou a perder força. Cínthia só voltou a postar histórias com frequência quando conheceu o site NYAH! Fanfiction.

Na época, histórias baseadas em personagens reais não estavam sendo aceitas pelo site, pois poderiam gerar processos jurídicos. No entanto, a plataforma tinha uma parte voltada para outras histórias. Cínthia decidiu, então, criar personagens originais.

Da internet para as livrarias

Em 2014, Cínthia começou a pensar em escrever um livro. “Nunca tinha tido contato com nenhum autor e achava muito difícil entrar para uma editora para publicar”, conta. Tudo mudou quando conheceu a escritora Babi Dewet, autora do livro “Sábado à noite”.

Babi também escrevia fanfics e acabou criando um público leitor fiel na internet. “Sábado à noite” é uma adaptação de uma das suas histórias. Cínthia percebeu que publicar um livro talvez não fosse tão impossível assim. “No final do ano, comecei a pensar em uma ideia que pudesse funcionar bem fora da internet. Online, você pode escrever um romance bobo que será lido em uma tarde e esquecido no futuro. Mas um livro é uma coisa mais duradoura”, opina. “Você passa um tempão divulgando e, por isso, precisa gostar mesmo da história. Ela também precisa ser melhor estruturada e mais cativante”, explica.

Como queria que a história fosse sobre a internet, pois essa é sua origem, decidiu criar personagens que escrevessem fanfics. “SAKE – Nossa história oficial”, fala sobre Jake Ritter, estrela de um filme LGBTQ de Hollywood, e seu namorado, o músico Sebastian Davies. Os dois usam o universo das fanfics e dos fã-clubes para promover, em segredo, suas próprias carreiras.

ilustração de personagens do livro

Jake Ritter e Sebastian Davies, personagens do livro. Foto: Divulgação

Cínthia chegou a iniciar um crowdfunding para viabilizar a publicação do título. No entanto, enquanto o financiamento coletivo rolava, duas editoras se interessaram pela obra. Caso atingisse a meta no Catarse, não poderia aceitar as possíveis propostas. Decidiu, então, parar de divulgá-lo para tocar as negociações.

Leia mais: Spoiler: por que levanta tanta polêmica?

Augusto Alvarenga também começou a escrever na internet. “Gostava de escrever crônicas, até que um amigo me desafiou a fazer um conto, que é uma narrativa maior. Fiz o primeiro, os leitores gostaram e me pediram para continuar. Fui dando continuidade e, quando vi, tinha um livro pronto”, explica.

A primeira obra de Augusto é “Um Amor, Um Café & Nova York”, também voltada para o público jovem adulto. Os personagens principais não são homossexuais, mas os secundários sim.  Já ” 1 + 1 – A Matemática do Amor” é totalmente focado no universo LGBTQ. Os protagonistas são Lucas e Bernardo, dois amigos de infância que serão separados pela mudança de um deles para Portugal. Na iminência da separação, percebem que ali há muito mais do que amizade.

O que o público quer ler: livros LGBTQ

Augusto conta que “1 + 1 – A Matemática do Amor” começou como uma brincadeira. Ele escreveu um prólogo e mandou para Vinícius Grossos, que deu continuidade. Cada um assumiu um personagem e a história começou a ser construída a quatro mãos. No início, não pensavam muito em publicar, pois não sabiam se a temática seria bem aceita.

Só decidiram ir atrás de editoras quando perceberam que livros LGBTQ internacionais estavam se popularizando bastante. “Há público para isso e uma aceitação razoável”, opina. “Decidimos mandar o manuscrito para a Faro, que já havia publicado outra obra do Vinícius, e ela respondeu super rápido. Disseram que iam apostar na representatividade e na temática e realmente apostaram”, completa.

Para Augusto, o mercado editorial está se voltando para livros LGBTQ, principalmente no que diz respeito ao público jovem adulto. “Tem se falado muito sobre igualdade e representatividade. Leitores não querem ler coisas com as quais não se identificam. Querem personagens que se enquadrem em suas vidas”, explica. “As editoras vão publicar o que os leitores estão querendo”, completa.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 115 [4] => 17 [5] => 238 [6] => 92 [7] => 125 [8] => 173 [9] => 16 [10] => 276 [11] => 25 [12] => 157 [13] => 66 [14] => 67 [15] => 62 [16] => 153 [17] => 127 [18] => 12 [19] => 19 [20] => 187 [21] => 69 [22] => 154 [23] => 175 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence