Feminismo: história, livros para se informar e mulheres para admirar
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Feminismo: história, livros para se informar e mulheres para admirar

Camila Luz em 15 de março de 2017

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O feminismo nasceu da luta das mulheres pela igualdade de direitos em relação aos homens. O movimento começou a ganhar força no século 18, mas cada pessoa do sexo feminino (ou que se identifica como) trava suas lutas individuais desde o início dos tempos.

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”, disse a escritora e ativista estadunidense Audre Lorde. Ao longo da história, mulheres sofreram violência, foram queimadas na fogueira, proibidas de sair de casa desacompanhadas, impedidas de trabalhar e reduzidas a seres inferiores, cuja única função era servir o sexo masculino e botar filhos no mundo.

Felizmente, o sexo feminino conquistou muitos direitos políticos, civis e sociais nos últimos séculos. Em 2015, as mulheres da Arábia Saudita foram às urnas pelas primeira vez: até 2015, o país — o último país a fazer isso — ainda proibia o voto feminino. Nos últimos anos, as mulheres também conquistaram o direito ao divórcio, a trabalhar fora de casa, a ocupar cargos políticos e, em alguns países, até o direito de abortar.

Todos esses avanços foram alcançados não sem o sacrifício de mulheres corajosas que marcaram história.

O patriarcado

O Código de Hamurabi, criado na Mesopotâmia por volta do século 13 a.C., estabelecia que uma mulher que não tivesse sido uma dona de casa cuidadosa, que houvesse “vadiado”, negligenciando sua casa e depreciando seu marido, deveria ser “jogada na água”.

Na antiguidade clássica, berço do modelo político de democracia adotado pelo ocidente atual, mulheres e escravos eram proibidos de participar das decisões políticas e não eram considerados “cidadãos”. A função do sexo feminino era cuidar dos afazeres domésticos.

Na Idade Média, a mulher devia cumprir funções reprodutivas além das domésticas. Vivia à sombra do marido e não tinha poder de decisão algum. Além disso, o pensamento teológico dominante associava seu corpo ao pecado. Durante esse período da história, a Inquisição determinou uma “caça às bruxas”, sendo responsável pela morte de milhares de mulheres queimadas na fogueira.

Os inquisidores, dirigidos pela Igreja Católica Romana, consideravam bruxaria todas as práticas que envolviam a cura através de chás ou remédios feitos de ervas ou outras substâncias. Esse período obscuro da história condenou mulheres independentes, fortes e que ousavam falar contra os homens. Cientistas e pensadores que contestavam as normas religiosas impostas também sucumbiram.

Na Europa do século 19, as revoluções burguesas instauraram a igualdade formal dos homens perante à lei em níveis políticos. As mulheres, entretanto, não foram incluídas na equação. Nessa época, começaram a surgir os primeiros movimentos feministas de que se tem registro na história moderna.

Quando surgiu o feminismo?

Há divergências sobre quando nasceu o movimento feminista. Ainda que existam evidências de luta pela igualdade de direitos séculos antes, estudiosos do tema acreditam que o surgimento do feminismo moderno ocorreu no contexto social e político da Revolução Francesa (1789).

Em 1792, a revolucionário Olímpia de Gouges fez uma declaração proclamando que a mulher possuía direitos naturais idênticos aos dos homens. Por isso, tinha o direito de participar da formulação de leis e ocupar cargos políticos. Sua declaração marcou a história, mas não foi aceita pelos governantes da época.

Nesse contexto, revolucionárias começaram a brigar para que os direitos conquistados pela Revolução Francesa não fossem restritos aos homens. A partir daí, o sexo feminino travou uma luta corajosa que só deu frutos no século 20, quando o Movimento Sufragista conquistou o direito ao voto feminino que, de certa forma, foi o começo da revolução.

As três ondas do feminismo

A primeira  onda feminista ocorreu no Reino Unido e nos Estados Unidos entre o final do século 19 e início do 20. O objetivo era garantir igualdades contratuais e de propriedades para homens e mulheres. Naquela época, o sexo feminino só trabalhava com autorização de seus maridos e, em caso de divórcio, não tinha direito a nenhum dos bens e nem à guarda dos filhos.

Porém, no final do século 19, a primeira onda focou seus esforços na luta pelo direito ao voto feminino. Elas também brigavam por direitos sexuais, reprodutivos e econômicos. Uma das maiores herdeiras dessa luta é a filósofa francesa Simone de Beauvoir, autora do livro “O Segundo Sexo” (1949).

A segunda onda feminista surgiu na década de 60 e durou até o final dos anos 80. O período é marcado pela conquista de direitos políticos angariados na primeira onda. As feministas ganharam mais espaço e foram ouvidas pela sociedade. Dessa vez, lutavam pela valorização do seu trabalho, direito ao prazer, liberdade sexual e pela completa igualdade entre os sexos. Além disso, no contexto brasileiro, lutavam contra a ditadura militar.

Um dos principais expoentes da época é a feminista Carol Hanisch, que criou o slogan “o pessoal é político”. A segunda onda encorajava as mulheres a se politizarem, lutando contra problemas culturais e estruturas sexistas.

A terceira onda feminista é bem mais recente. Surgiu na década de 90 com o objetivo de corrigir lacunas deixadas das outras ondas e trazer mais voz a grupos pouco representados. No Brasil, o feminismo negro começou a ganhar força antes, já no final da década de 70. Isso porque as duas primeiras ondas tinham foco nas experiências das brancas de classe média. Esse novo momento histórico foi marcado pelo olhar crítico das feministas para o próprio movimento, algo que perdura até hoje.

Principais protestos a favor dos direitos das mulheres

Durante o século 20, inúmeros protestos ocorreram no mundo todo a favor de melhores condições de vida e dos direitos femininos. No Brasil, em 1907, a greve das costureiras buscava melhores condições laborais em fábricas têxteis. Elas lutavam pela regularização do trabalho feminino, jornada de oito horas e a abolição do trabalho noturno para mulheres.

Em oito de março de 1917, aproximadamente 90 mil operárias russas se manifestaram contra o Czar Nicolau II pelas más condições de trabalho, fome e também contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial. O protesto ficou conhecido como “Pão e Paz” e consagrou o Dia Internacional da Mulher, oficializado em 1921.

Protesto Pão e Paz

Protesto Pão e Paz Foto: Reprodução

Durante os anos 60 e 70, feministas tomaram as ruas dos Estados Unidos para protestar por direitos reprodutivos, questionando o anticoncepcional apenas para mulheres e lutando contra a violência sexual.

Na Islândia, em 1975, mulheres entraram em greve e se recusaram a lavar, passar, cozinhar e cuidar das crianças por um dia. O momento histórico colocou o país escandinavo na vanguarda das lutas pela igualdade de gênero. Hoje, é considerado o país mais progressista do mundo.

Mesmo assim, em outubro de 2016, milhares de mulheres islandesas fizeram greve em protesto contra a diferença salarial em relação aos homens. No dia 27 de outubro, elas deixaram seus postos de trabalho às 14h38 . Segundo cálculos feitos em cima dos salários dos homens, é a partir desse momento do dia que elas deixam de ser pagas em suas atividades profissionais quando cumprem jornada de oito hora. Ou seja, “começam a trabalhar de graça”.

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Protesto de Islandesas em Outubro de 2016 Foto: Reprodução

Em 2017, o movimento “Women’s March”, dos Estados Unidos”, e o “Ni Una Menos”, da América Latina”, convocaram uma greve geral das mulheres do mundo todo no dia 8 de março. O objetivo é o Dia Internacional da Mulher se torne um dia de luta, um “Dia sem Mulher”. Os movimentos convocaram todas as deixarem seus postos de trabalho e tomarem as ruas por mais direitos.

O lema é: “Se nosso trabalho não vale, produzam sem nós”. A ideia é mostrar que as mulheres são tão fundamentais para a economia quanto os homens, merecem os mesmos salários e um tratamento respeitoso.

Livros para aprender sobre feminismo

“Antígona” – Sófocles

A tragédia grega escrita em 442 a.C. conta a história de Antígona, personagem feminina que desafiou as autoridades patriarcais. Sem partidários ou um exército a seu favor, abala a tirania sozinha em uma sociedade em que a mulher sequer era considerada cidadã.

“Em defesa dos direitos da mulher” – Mary Wollstonecraft

Uma das primeiras obras sobre filosofia feminista foi escrita pela inglesa Mary Wollstonecraft no século 18. O livro é uma resposta aos políticos e teóricos da educação que não acreditavam que as mulheres devem ter direitos iguais aos do homem.

“Jane Eyre” – Charlotte Brontë

O romance lançado em 1847 é um dos mais famosos da escritora e poetisa inglesa Charlotte Brontë. Conta a história de uma mulher pobre e feia que se torna dona de sua própria vida, perseguindo seus desejos profissionais e amorosos. A história se opõe a outros romances da época, que traziam protagonistas belas e delicadas.

“O Segundo Sexo” – Simone de Beauvoir

Impossível falar sobre feminismo sem citar Simone de Beauvoir. O livro “O Segundo Sexo”, lançado em 1947, foi um marco nos estudos de gênero. Ele traz a famosa frase “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.

“A Cor Púrpura” – Alice Walker

O romance lançado em 1982 trata de questões como discriminação racial e sexual. Narra a história da mulher negra Celie, que aos 14 anos foi estuprada pelo pai, tem dois filho dele e é obrigada a se casar contra a sua vontade. O livro trata de racismo no sul dos Estados Unidos e fala sobre patriarcado, carências educacionais para mulheres e outros assuntos relacionados.

“Um Teto Todo Seu” – Virginia Wolf

“Um Teto Todo Seu” é um dos livros de Virginia Wolf que fala sobre feminismo. Na obra, ela destaca a importância de mais discursos femininos na literatura. O exemplo mais famoso é a ideia de que se Shakespeare tivesse uma irmã, ela não conseguiria publicar uma linha simplesmente por ser mulher.

“A Mulher na Sociedade de Classes” – Heleith Saffioti

Publicada em 1969, é considerada a obra inaugural do debate feminista contemporâneo brasileiro. A própria autora não se via como feminista quando escreveu o livro, mas seu discurso reflete sobre problemas centrais do movimento, como a divisão sexual do trabalho e o papel das mulheres na sociedade. Também aborda temas como maternidade, casamento e sexualidade.

“O Contrato Sexual” – Carole Pateman

O livro oferece uma nova interpretação da teoria política. A escritora britânica mostra como as discussões políticas sobre o contrato social levavam em conta apenas um lado da história: o masculino. Passando por inúmeros autores clássicos, coloca a questão do contrato sexual e mostra como o patriarcado foi estabelecido.

Mulheres que fizeram história

Além das principais autoras feministas, há mulheres que se destacaram em seu tempo por desafiar os padrões. A lista é longa, mas separamos aqui algumas delas. Confira:

Safo

A poetisa grega de 570 a.C foi uma das primeiras mulheres a ter seus textos publicados. Integrante da aristocracia, ainda jovem já fazia parte da vida política e pública. Foi exilada na Sicília por divergências políticas e foi considerada uma dos 10 melhores poetas da história por Platão.

Joana d’Arc

A francesa é uma das principais heroínas da história. Ficou famosa por mobilizar a população do país contra a ocupação inglesa no século 15. Foi queimada viva e acusada de bruxaria – fato que só ajudou a espalhar seus ideais sociais pelo mundo. Hoje, é considerada uma santa pela Igreja Católica.

Marie de Gournay

A escritora feminista francesa viveu entre os séculos 16 e 17 e é autora de dois títulos importantes: “Égalité des Hommes et des Femmes” (“A Igualdade dos Homens e das Mulheres”) e Les Femmes et Grif des Dames” (“As Mulheres e o Pesar das Damas”). Ela acreditava que o sexo feminino deveria ser educado e instruído.

É autora de inúmeras frases célebres, como “feliz és tu leitor se não estás no lugar do sexo ao qual se proíbem todos os bens, inclusive a liberdade”.

Anita Garibaldi

Conhecida como a “heroína de dois mundos”, a brasileira participou da Guerra dos Farrapos e de outros combates na América Latina durante o século 19. Aprendeu a lutar com espadas, usar armas de fogo e chegou a ser prisioneira do governo brasileiro.

Maud Wagner

Maud Wagner foi a primeira tatuadora reconhecida nos Estados Unidos. Em 1911, já tinha o corpo coberto por tatuagens e uma lista enorme de clientes fiéis. Quebrou paradigmas e lutou contra o preconceito para exercer a profissão pela qual era apaixonada. Seu talento e ousadia abriram portas para que outras tatuadoras fossem reconhecidas como verdadeiras profissionais e artistas.

Ada Lovelace

O mundo da computação parece dominado pelos homens. Mas você sabia que a primeira programadora da história foi uma mulher, quase 200 anos atrás? Ada Lovelace nasceu na Inglaterra em 1815 e descobriu que era possível trocar número por outros elementos, como letras, símbolos e códigos, para programar e reprogramar uma máquina de calcular. Essa é a ideia principal da computação até hoje.

Maria Quitéria de Jesus

Símbolo da resitência baiana, se disfarçou de homem para lutar contra os portugueses na guerra pela independência travada entre 1822 e 1823. Ela não frequentou a escola, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo. Tornou-se exemplo de bravura e coragem e foi promovida a cadete em 1823. Também foi condecorada por Dom Pedro I e recebeu a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.

Safo

Safo 500 d.C Foto: Wikimedia Commons

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Joana d'Arc 1412 - 1431 Foto: Wikimedia Commons

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Marie de Gournay 1565 - 1645 Foto: Wikimedia Commons

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Anita Garibaldi 1821 - 1849 Foto: Wikimedia Commons

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Maud Wagner 1877 -1961 Foto: Wikimedia Commons

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Ada Lovelace 1815 - 1852 Foto: Wikimedia Commons

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Maria Quitéria de Jesus 1792 - 1853 Foto: Wikimedia Commons

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