De bicicleta, casal brasileiro viaja ao redor do mundo
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Foto: Arquivo Pessoal
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De bicicleta, casal brasileiro viaja ao redor do mundo

Kaluan Bernardo em 29 de junho de 2016

Um casal, duas bikes e 40 países em três anos e meio. Essa foi a aventura que o casal Karla Cerri e André Cherri resolveu viver em 2012, quando os dois decidiram viajar o mundo de bicicleta. Passaram pela Europa, América do Norte, Ásia e América Latina com apenas suas bikes, pouco dinheiro e a vontade de abraçar o planeta.

A ideia surgiu em 2010, quando Karla (nutricionista) e André (fotógrafo) foram à exposição de Cartier-Bresson. Lá eles conheceram o livro “Caminhos”, de Argus Caruso, um brasileiro que passou três anos e meio pedalando pelo mundo.

Malas prontas? Bikes montadas? Partiu

Para pedalar o mundo inteiro você precisa de um baita condicionamento físico e ser ciclista, certo? Nem tanto. Karla e André contam que não eram sedentários, mas não costumavam andar de bike. “Compramos uma bike uns três meses antes e ficávamos andando como loucos no Ibirapuera, achando que a viagem seria aquilo”, conta Karla.

Obviamente, no caminho, descobriram que exigia muito mais esforço. Mas isso não atrapalhou a viagem e eles conseguiram cruzar quase todos os países em cima de suas magrelas.

O planejamento também não foi tão complicado assim porque eles fizeram tudo com calma e tempo. Foram dois anos entre a decisão e a viagem. Nesse tempo, venderam o carro, colocaram o apartamento para alugar e demitiram-se de seus empregos.

“Só avisamos nossas famílias três meses antes para garantir que ninguém sofreria antecipadamente”, conta André. “Mas não fizemos um grande planejamento. Apenas pensamos em algumas rotas e amigos que gostaríamos de visitar. Queríamos deixar o roteiro aberto”, diz.

O mundo é mais intenso em cima de uma bicicleta

Fazer a viagem de bicicleta teve dois principais motivos: economizar dinheiro e viver a viagem mais intensamente. “Quando você anda de bike, chama a atenção das pessoas e muita gente vem conversar ou ajudar. Assim conseguimos nos abrir mais para o inesperado”, conta Karla.

A empolgação foi tanta que resolveram dar um nome à viagem: BikesAndSpices. A primeira cidade em que desceram foi na Holanda, onde conseguiram todo o equipamento das bicicletas por um bom preço. E de lá pedalaram por todos os outros lugares. André diz:

Quando você sai de casa, na cidade, anda na defensiva, armado contra a agressividade, o barulho, a poluição visual. E acaba não sendo aquilo que é. Na estrada, em cima de uma bicicleta, tão exposto, você consegue se livrar disso tudo e praticar a humildade, superar limites, ser grato, etc.

Mudaram sua visão depois da viagem. Morando em São Paulo andavam só de carro, hoje consideram muito mais as bikes. “Essa briga de bike e carro não é legal para ninguém. Se eu sou muito ferrenho na bicicleta, não causo empatia. E o motorista, por outro lado, tem que entender que quem está na bike pode ser seu amigo. A gente também tem família, pai, sobrinho, irmã. Pedimos respeito e que parem de ver a bicicleta como algo ruim”, conta André.

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Viajar o mundo pode não custar caro

Após a experiência, hoje o casal está em São Paulo espalhando a mensagem de que é possível viajar bem, pelo mundo todo, sem gastar muito. O dinheiro que eles juntaram dava só para seis meses. Todo o resto do tempo eles viveram apenas com o dinheiro do aluguel de seu apartamento.

Pegavam caronas, ficavam em campings, dormiam na casa de desconhecidos. Hospitalidade nunca faltou e isso os ajudou sempre. Além disso, não ficavam muito tempo em um lugar para evitar que o custo subisse.

Karla Cerri fazendo piquenique no parque

Foto: Arquivo Pessoal

Segundo André, o casal gastou, em média, US$ 100 por mês. “Era mais barato que nosso custo de vida em São Paulo”, complementa Karla. Em alguns lugares, como na América Latina e do Norte, chegaram a gastar US$ 15 por dia.

“No começo gastávamos mais porque queríamos nos permitir algumas coisas. Quisemos experimentar as cervejas belgas e os pães e queijos franceses”, diz André. No entanto, no final, passaram a economizar ainda mais — hábito que continuou em suas vidas.

“Quando morávamos em São Paulo já vivíamos uma vida bem simples. No entanto, ao longo da viagem percebemos que dá para viver com muito menos. Você não precisa lotar o guarda-roupa e suas estantes. Isso não traz felicidade. O que importa é estar em ambientes legais, com pessoas bacanas e energia positiva. O resto você consegue levar da forma que der”, diz Karla.

Você ainda leva várias experiências únicas

Em parte graças ao inusitado da bicicleta, as pessoas se aproximavam do casal para tentar conversar com eles ou oferecê-los algo. Em regiões como a China, nem a barreira da linguagem conseguiu se colocar entre as relações humanas. Por vezes, só por gesto, criava-se cumplicidade e nativos traziam comida, convidavam-nos a se hospedarem em suas casas etc.

Karla conta a história que passou na França, em uma pequena cidade, onde descobriram um pequeno acampamento para os funcionários de uma ferrovia. Conversaram com o responsável pelo local e conseguiram ficar por lá um dia.

“Quando estávamos preparando o jantar, olhamos para o céu e vimos uma lua incrível”, conta Karla. “Na hora, mentalizamos como gostaríamos de tomar um café. Eis que aparece o responsável pelo acampamento, com uma bandeja com dois cafés, refrigerantes e melancia nos servindo. Ele estava de jejum por conta de seu ramadã, mas queria compartilhar alimentos conosco. Em vários momentos acontecia algo do tipo: mentalizávamos algo e alguém oferecia exatamente aquilo para nós”, diz.

Karla Cerri com família sentados em escada para foto

Karla Cerri em uma das casas em que ficaram hospedados. Foto: Arquivo Pessoal

O casal conta que histórias semelhantes, quase mágicas, aconteceram em vários outros lugares da viagem. E desses momentos, eles voltaram transformados para São Paulo. “A cidade hoje é muito diferente da que conhecíamos quando saímos em 2012. Ela está bem mais polarizada”, diz André. “Mesmo assim, estamos evitando essa bad vibe e conseguindo lidar com o meio de uma forma bem mais tranquila, como se estivéssemos viajando por aqui também”, conclui.

Agora, enquanto retomam suas vidas profissionais aqui, se preparam para compartilhar as experiências da viagem. Pretendem lançar um livro e uma exposição com as fotos. Mas tudo a seu tempo. Pretendem fazer os lançamentos com calma. Enquanto isso, se quiser pedir dicas ou chamar o casal do BikeAndSpices para um bate-papo, basta enviar uma mensagem em sua página no Facebook.

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