Como nasce um bloquinho de Carnaval? Veteranos e novatos respondem
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Bloco Ritaleena Foto: Jal Vieira
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Como nasce um bloquinho de carnaval?

Kaluan Bernardo em 12 de março de 2017

Já se foi a época em que o paulistano ou passava o Carnaval em outra cidade ou ficava amargurado em casa assistindo o desfile das escolas de samba pela televisão. Nos últimos anos, o carnaval de rua e seus bloquinhos ganharam força na Paulicéia Desvairada, dando aos foliões motivos de sobra para ficar na cidade durante a festa. Em 2017, foram nada menos do que 495 blocos de Carnaval cadastrados na capital paulista; em 2016 foram 355.

E há todo tipo de bloquinho, com os mais diferentes públicos. A música vai do axé ao rock, do funk à marchinha. O pessoal que segue pode ser punk, sertanejo, do samba ou tudo ao mesmo tempo. Pode ter trio elétrico, caminhão de feira ou até mesmo banda sem nada disso, apenas no chão. O que importa é estar na rua, ocupando o espaço público e festejando.

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Muitos não dão lucro. São custeados por um grupo de amigos que faz um crowdfunding ou por patrocinadores que começam a olhar com mais atenção para o movimento. Diversas vezes os blocos são organizados por uma ou duas pessoas que contam com a ajuda de dezenas de amigos.

Mas você já parou para pensar como nasce um bloquinho? Qual o percurso da ideia até a materialização do trabalho? Conversamos com três bloquinhos – dois experientes e um estreante – para ver como o movimento sai da cabeça até a tomada das ruas.

O percurso dos bloquinhos de Carnaval

Tô de Bowie

Em 2016, o Tô de Bowie agregou 40 mil pessoas, segundo a CET. A ideia, no entanto, nasceu de forma despretensiosa. “Era 2015 e estávamos na terça de Carnaval pensando no que fazer e decidimos fazer o raio do David Bowie e sair na rua. Foi quando alguém veio com o trocadilho do ‘Tô de Bowie’”, conta o maquiador Renatto Souzza, um dos organizadores do bloco.

A brincadeira evoluiu e foi ganhando forma até que, no final de 2015, resolveram cadastrar o bloquinho e lança-lo. No início do janeiro de 2016, fizeram a festa de lançamento. Poucos dias depois David Bowie faleceu. “Aí tudo mudou e o bloco cresceu ainda mais. Obviamente saímos na imprensa etc”, comenta sobre a coincidência.

O bloquinho toca versões de David Bowie em diferentes ritmos. Além das músicas, a homenagem se fortalece muito com o figurino. “Ele tem super a ver com o Carnaval, com o questionamento estético, essa coisa do camaleão, da maquiagem… tem tudo a ver com criar um personagem para se divertir na rua”, comenta.

Renato cuida do bloquinho com só mais uma pessoa, Cauê Yuiti. Ambos se envolvem em cada processo, dos arranjos das músicas aos figurinos. No primeiro ano, o tema foi a homenagem a Bowie; nesse ano foi “viagem ao espaço”, abordando essa temática recorrente na carreira do músico.

O bloco também é financiado por patrocinadores e não tem fins lucrativos. São três a quatro meses de trabalho antes e, quando a festa está chegando, os organizadores também contam com a ajuda de amigos que vão desde advogados a produtores.

Ritaleena

O Ritaleena é cria da figurinista Yumi Sakate e da musicista Alessa Camarinha. Como o trocadilho do nome sugere, é uma homenagem à Rita Lee. “Ela tem muitas histórias em São Paulo, canta muito a cidade – de forma direta e indireta –, tem essa coisa do rock de São Paulo etc. Representa muito a cidade”, reflete Yumi sobre a relação da homenageada com a cidade.

bloquinho Ritaleena

Foto: Jal Vieira

No bloco há 36 músicas de Rita Lee com arranjos em diferentes ritmos, que vão do eletrônico ao samba. As organizadoras também capricham no figurino: no primeiro ano, por exemplo, Yumi foi de ovelha; neste ano foi representando um jardim elétrico – todas referências a letras e títulos de álbuns com Rita Lee.

A ideia nasceu em 2014, mas o bloquinho só estreou em 2014. Quando estavam procurando o nome, vieram várias piadas, até que um amigo disse que só iria se rolasse o trocadilho de “Ritaleena” com Ritalina, um medicamento para tratar déficit de atenção.

“Fizemos o bloquinho pensando em nossos amigos, não esperávamos mais de 200 pessoas”,  conta. Só que foi muito maior do que imaginavam e já na estreia do evento tinha 5 mil foliões. E continuou crescendo: no segundo foram entre 10 e 12 mil, enquanto nesse ano as organizadoras calculam que foram pelo menos 20 mil pessoas.

Foto: Jal Vieira

Nos dois primeiros anos, o bloco se financiou por crowdfunding. Em 2017, com mais atenções voltadas para si, conseguiram patrocinadores. Mas Yumi diz que ele não dá lucro – só fazem porque gostam. O bloco, inclusive, é organizado apenas pela dupla. Mas nos dias que antecedem o desfile, elas contam com ajudas de diversos amigos.

Outra forma de financiamento que as organizadoras encontraram são duas festas – uma antes e outra depois – que ajudam na arrecadação. Em 2017, com a grana das festas e dos patrocinadores, elas conseguiram colocar o bloco na rua duas vezes: uma na semana pré-Carnaval e outra durante o feriado.

E Rita Lee já disse alguma coisa sobre o bloco? No primeiro ano ela deu uma declaração ao jornal Folha de S. Paulo falando que torcia por eles. Em 2016 as organizadoras encontraram a homenageada no lançamento de sua autobiografia. “Ela foi super fofa”, conta.

Bloco de notas

Mas nem todo bloco começa com milhares de pessoas – o que também não é um problema. Estreantes em 2017, o Bloco de Notas é uma ideia de publicitários que quiseram fazer um karaokê ao vivo.

“A pessoa pode subir no trio elétrico e cantar a música que escolher, como se fosse a Ivete no Carnaval”, conta Vinicius Nakashima, um dos organizadores. Estreando no final de semana pós-Carnaval, reuniram aproximadamente 200 pessoas que foram festejar o karaokê de rua.

Foto: Reprodução

O bloco também foi financiado por crowdfunding e o maior custo foi com o aluguel de um caminhão, que saiu por R$ 2.600. O resto foi só ligar o computador e preparar a lista de músicas que compõem o catálogo da cantoria.

Vinicius diz que ao menos dez pessoas se envolveram diretamente com a organização do bloco. E em todas as reuniões com a subprefeitura puderam contar com a ajuda de outros organizadores de bloquinhos.

 

Essa característica da colaboração foi ressaltada também pelos organizadores da Ritaleena e do Tô de Bowie. “É tudo um grande clima de Carnaval. A ideia é fazer um grande evento gratuito para que todos aproveitem a cidade. Damos respaldo para quem está começando. Nunca tivemos problemas em receber ou oferecer ajuda de outros blocos. Inclusive, se estamos fechando com um patrocinador, até indicamos outros organizadores etc. É um esquema que beneficia todos”, comenta Renatto.

O carnaval de São Paulo e sua identidade

Algo que os três organizadores comentaram e é visível para quem curte as festas é a tomada das ruas pelos bloquinhos no Carnaval. E, mais do que isso, o quanto representa um momento no qual São Paulo está redescobrindo a ocupação do espaço público.

“As pessoas estão perdendo o medo de andar na rua e agora estão ocupando o espaço público. Quando cheguei em São Paulo há dez anos as pessoas tinham medo de sair. Hoje, os bloquinhos reúnem funk, sertanejo, rock, MPB, tudo no mesmo dia e todos com lotação máxima”, comenta Renatto.

Yumi pensa parecido. “Há esse momento de ocupar os lugares. É um fenômeno que vemos na Virada Cultural, nos eventos etc. É uma descoberta lenta mesmo. As pessoas ficam receosas de ocupar as ruas depois de tanto tempo sem poder”, diz.

Ela acredita que ainda está sendo desenhada uma identidade para o Carnaval de São Paulo. “O que percebemos é que há muitos blocos temáticos, de homenagem, muitos com DJ. Isso chama a atenção e também há os mega blocos vindo para cá, além de festas que estão virando blocos”, comenta.

Questionados se sentiram alguma diferença na organização entre 2016 e 2017, quando mudou a gestão da Prefeitura, tanto os organizadores do Ritaleena quanto do Tô de Bowie disseram que notaram apenas mudanças pontuais, mas nada que modificasse concretamente o trabalho dos blocos, por enquanto.

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