Emerson Ferreira criou o projeto Reflexões da Liberdade em Embu
emerson ferreira
Foto: Jessica Santana
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Emerson Ferreira cria Projeto Reflexões da Liberdade focado em adolescentes

Aretha Yarak em 31 de outubro de 2017

Quando tinha 19 anos, Emerson Ferreira dirigia um veículo carregado de drogas ao ser abordado pela polícia. Como imaginava que conseguiria sair impune, resolveu fugir, mas acabou preso em flagrante e condenado a uma sentença de oito anos. Saiu da prisão depois de cumprir quatro anos e meio de pena com um objetivo em mente: usar a educação para mudar a própria vida e a das pessoas com pouco acesso à escola.

No início deste ano, ele fundou o Reflexões da Liberdade, um projeto que busca gerar mobilização, ação e transformação a partir da participação cidadã e engajamento coletivo, formando agentes de mudanças consciente.

“O Reflexões é a minha entrega, foi a maneira que encontrei de intervir nos processos existentes em Santa Luzia, bairro de Embu das Artes, no qual eu moro”, explica. O foco inicial do projeto é entrar nas 71 escolas da Diretoria de Ensino de Embu, que engloba também os colégios de Taboão da Serra.

“Minha conversa com esses jovens dos ensinos Fundamental 2 e Médio é para falar sobre os valores que faltaram e que me levaram ao crime, mas também para convidá-los a assumirem o controle das suas vidas”, explica.

A prisão de Emerson Ferreira e o começo do Reflexões da Liberdade

O caminho que Emerson percorreu até chegar ao projeto Reflexões da Liberdade foi longo e perigoso. Ainda garoto e com menos de dez anos de idade, ele ajudava na renda familiar vendendo verduras pelo bairro. “Eu nunca tive vergonha, eu ia levando e fazendo, e esse perfil independente pode ser perigoso quando se escolhe o caminho errado”, comenta. “Nunca imaginei, por exemplo, que acabaria preso. Mesmo quando eu já estava lá na cadeia, só tomei um baque mesmo depois de seis meses, quando saiu minha sentença final de oito anos”.

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A ideia de estar em liberdade novamente apenas com 27 anos gerou revolta e ele se aproximou ainda mais do crime. “Até que chegou um momento em que pensei: passei da lama do fim do poço, ou vou até morrer ou saio dessa agora”, relembra. Escolheu mudar de vida.

No pavilhão que dividia com outros 600 presos, ele era um dos poucos que sabia ler e escrever, e acabou encarregado de redigir cartas. A tarefa abriu os olhos de Emerson para duas importantes reflexões. Faltava educação para a grande parte das pessoas que haviam escolhido a criminalidade, e isso não poderia ser uma mera coincidência.

Além disso, começou a perceber que as faltas e necessidades que havia passado, eram pequenas perto da história de vida de muitos dos colegas. “Eu entrei em contato com o que realmente era falta e abandono, a ponto de eu sentar para repensar toda a minha vida”, conta.

Em paralelo, Emerson começou a frequentar a biblioteca para estudar. Dedicação que resultou em um cargo de educador por quase dois anos e a participação em grupos de diálogo e estudo, como o GDUCC (Grupo de Diálogo Universidade-Cárcere Comunidade), mantido pela Faculdade de Direito da USP.

Emerson Ferreira aposta nas causas sociais

Quando saiu da prisão, Emerson prometeu ao pai que seria a primeira pessoa da família a conseguir um diploma de graduação. Como havia lido muitos livros de psicologia e se interessado pela carreira durante o tempo que passou preso, resolveu prestar vestibular para o curso. Foi aprovado em uma faculdade particular de Guarulhos e precisou manter dois empregos, como garçom em um restaurante e em um buffet, para pagar as mensalidades.

Em pouco tempo, no entanto, conseguiu uma oportunidade que tinha tudo a ver com o futuro que havia imaginado seguir: uma vaga para trabalhar no projeto Segunda Chance, do AfroReggae, ajudando ex-detentos a arrumarem emprego.

Em paralelo, participava novamente do GDUCC, mas agora como membro e coordenador. E em março de 2015, passou a integrar o Global Shapers – HUB São Paulo. A iniciativa do Fórum Econômico Mundial mantém uma rede global ativa de jovens entre 20 e 30 anos com forte potencial de liderança. Em 2016, ele foi reconhecido como Liderança Jovem do Estado de São Paulo .

Além do AfroReggae, ele ainda passou pela Associação Horizontes, por onde ministrou mais de 70 cursos em sete unidades da Fundação Casa, e na entidade Pano Social, fazendo acompanhamento psicológico e atuando na gestão de projetos.

“Essas atividades tinham mais a ver com o trabalho que eu decidi fazer e que mudou minha vida, eles foram fundamentais para a formação do Reflexões da Liberdade”, comenta.

Reflexões da Liberdade para o Santa Luzia

Em julho de 2016,  a moto de Emerson foi roubada dentro do bairro onde mora desde criança. Como era a única maneira de conciliar trabalho e faculdade, acabou ficando parado no Jardim Santa Luzia por um tempo. “Ficar no bairro me fez perceber que, embora eu tivesse conseguido realizar trabalhos legais, nada tinha sido feito para o meu bairro”, comenta.

Desde o começo do ano, o psicólogo passou a se dedicar integralmente ao desenvolvimento do Reflexões da Liberdade. Seu objetivo é levar a cultura da paz e desenvolver competências nos alunos das escolas de Embu das Artes e Taboão da Serra. Para cada uma das 71 unidades, Emerson pretende preparar uma estratégia alinhada com as necessidades específicas daquela comunidade.

A preparação da dinâmica que será aplicada com os alunos dos ensinos Fundamental 2 e Médio é feita com visita à escola, levantamento de dados e um teste com os alunos. Desde que começou o Reflexões, ele já visitou 12 escolas, mobilizando cerca de 3.500 alunos.

O Reflexões é meu retorno à sociedade por poder participar de um grupo tão seleto quanto o Global Shapers. Acredito que esse trabalho pode ser replicado em outras escolas, presídios e em empresas.

Até o final do ano, Emerson pretende finalizar a documentação necessária para a abertura legal do projeto e conseguir angariar fundos suficiente para manter a iniciativa de pé e atuante . “Quero fazer parte de algo que realmente tenha propósito, mas a questão de recurso ainda é um empecilho”, conta.

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