Emory Douglas: arte, Panteras Negras e a luz no fim do túnel
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© 2017/Emory Douglas/Artists Rights Society, ARSNY
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Emory Douglas: arte, Panteras Negras e a luz no fim do túnel

Kaluan Bernardo em 19 de março de 2017

Um senhor negro, de chapéu de palha, 73 anos, e um sorriso fácil no rosto, fala atenciosamente com todos que chegam até ele. Dá autógrafos, posa para fotos e, principalmente, presta atenção ao que cada pessoa tem a dizer.

Emory Douglas, ex-ministro da Cultura do Partido dos Panteras Negras, ganhou recentemente uma exposiçãoão toda dedicada a ele no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A exposição “Todo Poder ao Povo!”, vai de março a junho trazendo ilustrações de Douglas frente ao jornal do Partido dos Panteras Negras e ocupa todo um andar do local.

Na palestra de abertura do evento, Douglas mostrou por horas seus trabalhos, enquanto falava de sua história com os Panteras Negras. Com bastante humor e sarcasmo, não poupou críticas a nenhum governo, de Nixon a Trump, passando por Obama e Clinton. A relação de Emory Douglas com a política nasceu com o Partido dos Panteras Negras, do seu surgimento em 1966, até a sua dissolução na década de 1980.

Suas charges no jornal, além de levantarem voz sobre a luta negra, também tinham características únicas e criativas, misturando traços bruscos a colagens e técnicas de gráfica publicitária.

Mas mais do que o valor estético, suas obras continuam chamando a atenção pela urgência do tema. Para Douglas, embora os Panteras Negras tenham conquistado alguns benefícios, no geral, o racismo institucionalizado continua. “Estamos nos anos 1960 novamente. Principalmente no sentido de não ouvirem quais são as questões das pessoas, de não ligarem para seus problemas”, comenta em entrevista exclusiva ao Free the Essence.

Em 2016 foi comemorado o cinquentenário do Partido dos Panteras Negras. No mesmo ano, eclodiram cada vez mais protestos do movimento Black Lives Matter, denunciando a violência policial contra negros e o racismo institucional – as mesmas razões que deram origem aos Panteras Negras.

Conseguimos algumas mudanças básicas. Mas, ao mesmo tempo, ainda temos o racismo estrutural e institucional. Essas questões sobre qualidade de vida, igualdade, democracia existindo para os ricos, mas não para os pobres… tudo isso continua.

Segundo ele, a administração atual é o extremo que se pode ter do conservadorismo. “O país [Estados Unidos] é realmente conservador, principalmente quando você vê quem está controlando, fazendo políticas e governos”, comenta. Mas pondera: “As pessoas estão lutando contra essas coisas. Há um movimento popular que se opõe”, diz Douglas.

Emory Douglas e os jornais Panteras Negras

O Partido dos Panteras Negras foi criado por Huey Newton e Bobby Seale, dois estudantes do Merritt College, na Califórnia, em 1966. Originalmente, o grupo se chamava Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Era, entre outras coisas, uma resposta à violência policial contra negros. Ele pretendia atuar, inicialmente, no condado de Lowndes, região do Alabama, que tinha 80% da população composta por afrodescendentes, e nenhum deles tinha direito a voto. Mais de 50% dessa população vivia abaixo da linha da pobreza.

Embora tenha ficado principalmente conhecido pela defesa em relação à violência policial, os Panteras Negras tinham como objetivo promover diversos programas sociais de valorização do negro, além de políticas de garantia de emprego, moradia e educação igualitários. O símbolo da pantera negra era uma oposição ao dos Democratas no Alabama: um galo branco, com o slogan “Supremacia Branca”.

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Dentre os diversos programas sociais que o partido promovia, estavam cafés da manhã gratuitos para crianças das comunidades; escolas para os necessitados; ônibus gratuitos para que parentes de presidiários pudessem visita-los; programas de saúde e de acompanhamento de idosos para garantir sua segurança ao sacar aposentadoria.

Há diversas controvérsias, narradas por diferentes interlocutores, que dão conta da forma impositiva que alguns membros teriam cobrado a colaboração de pessoas da comunidade. O grupo, que também foi alvo  do FBI, se desgastou ao longo dos anos. Muitos dos membros foram presos, drenando parte dos recursos do Partido em fianças, e enfraquecendo sua posição na política.

Obra de Emory Douglas. Disponibilizada no Flickr de Carl Guderian como Creative Commons.

Um dos principais documentos históricos e uma das principais armas dos Panteras Negras foi o jornal do movimento. Grande parte da identidade do jornal foi criada por Emory Douglas, um então jovem de 23 anos que havia iniciado sua formação gráfica em um ateliê de ofícios e estudado arte comercial no San Francisco City College.

O primeiro jornal foi inaugurado em 25 de abril de 1967. Douglas assumiu a direção artística já na terceira edição, revolucionando a comunicação visual da publicação que, além de voz dos Panteras Negras, era também uma de suas principais fontes de receita.

Os traços de Emory Douglas

O curador Juan Pablo Fajardo, que assina a apresentação do catálogo de Douglas no Sesc Pinheiros, divide as ilustrações do artista em quatro grupos.

No primeiro, de denúncia, um dos personagens mais recorrentes é o porco, que representa as autoridades, os capitalistas, o Estado imperialista, a brutalidade policial, entre outros.

Uma outra faceta das charges de Douglas, como indica Juan Pablo, é o grupo de artes que representa as pobres condições de vida nos guetos e periferias, com esgotos, ratos e miséria.

Há um terceiro grupo, com ilustrações de traços fortes e tramas preenchidas. “Nelas, os personagens foram graficamente muito estudados e se encontram dentro de composições que, pelo enquadramento, remete à linguagem de HQ”, comenta o curador, dizendo que o uso de cores fortes e tratamento gráfico remete ao trabalho de Roy Liechtenstein, conhecido artista de Pop Art.

Por fim, há um quarto grupo de imagens menos gráficas, que se aproximam do desenho convencional, com linhas mais finas e delicadas.

Arte impressa no catálogo da exposição “Todo poder ao povo!”, do Sesc Pinheiros. Reprodução.

A arte que fica

Quando questionado sobre o papel da arte em um contexto de resistência, Emory Douglas diz que “a arte tem um papel informativo e esclarecedor. Algumas vezes precisa ser provocativa. Mas tem que ser levada em conta com as questões que quer levantar”, comenta.

Na palestra de abertura da exposição, Douglas comentou como não guardava muito material sobre seus trabalhos. Para ele, a periferia era seu museu. Se mostrava muito mais interessado no potencial imediato de comunicação de sua arte.

É válido notar, no entanto, o reconhecimento tardio de seu trabalho. Nos últimos anos, Emory Douglas ganhou exposições em instituições como o Moca, de Los Angeles; o New Museu, de Nova York; o Urbis Museum, de Manchester; o Omca, de Oakland; a Biblioteca Luis Angel Arango, de Bogotá; e o Sesc Pinheiros, de São Paulo. “É interessante verificar como a história do Partido [dos Panteras Negras] chega agora a muitos lugares do mundo e a novos públicos por meio da arte e das instituições culturais, muito mais do que através das ciências sociais e da política”, escreve Fajardo.

Emory Douglas segue dando palestras e workshops ao redor do mundo, mas diz que não há o que ensinar. “Não temos nada a ensinar. Nós compartilhamos. Você não tenta forçar algo, mas quando te pergunta, você explica sua posição”, esclarece, se referindo aos Panteras Negras.

A entrevista ao Free the Essence aconteceu um dia após o Dia Nacional das Mulheres. Desde a década de 1960 o Partido dos Panteras Negras já alertava para a defesa de outras minorias, como latinos nos EUA e mulheres. Questionado sobre o assunto, comentou que “as mulheres começaram e fortaleceram muitos capítulos dos Panteras. Em alguns momentos dos anos 1970, elas inclusive lideraram, como foi o caso de Eliane Brown”. Ele vê o racismo no Brasil e em outros países da mesma forma. “O racismo institucional não conhece barreiras”, comenta.

Emory segue falando de assuntos como tensão racial, mas sempre com sorrisos e didática para explicar.  Embora tenha uma visão cínica sobre as mudanças conquistadas, segue otimista.:

Há uma luz no fim do túnel. Você tem que ir pelo escuro, passar por dificuldades, mas sempre há uma luz no fim do túnel. Temos que ir juntos. A luta continua.

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