Dalits, antes intocáveis, começam uma revolução na Índia
dalit
Mulheres Dalit protestam. Foto: Wikimedia (Creative Commons)
Unplug > Interventores

A revolução dos “intocáveis”, ou Dalits, na Índia

Kaluan Bernardo em 23 de outubro de 2016

Há mais de 3 mil anos, a Índia tem um sistema de castas que separa hierarquicamente sua população. Durante todo esse tempo, já foi questionado diversas vezes, mas ainda existe em muitas partes do país. Os dalits, chamados de “intocáveis”, continuam sendo marginalizados e violentados. No entanto, estão começando a se rebelar conta o status quo.

Reportagem da jornalista Sunaina Kumar para a revista Pacific Standard mostra que os dalits, inspirados por movimentos como o “Black Lives Matter”, estão se rebelando contra a opressão que sofrem. “Essa raiva tinha que vir; nós fomos fracos e sem poder por muito tempo. Agora estamos prontos para bater de volta”, diz Ashok Das, um jornalista dalit, de 32 anos, à Pacific Standard.

O estopim para a revolução dos dalits

Tudo começou com um vídeo postado nas redes sociais, no qual quatro homens, despidos da cintura para cima, são amarrados a um veículo, desfilam em público e são espancados. Eles são castigados por terem esfolado uma vaca morta. Eles estavam apenas fazendo seu trabalho, mas os hindus de castas superiores, que consideram o animal como sagrado, os punem.

O evento aconteceu em julho, em Una, uma pequena cidade no cidade no estado de Gujarat. Em resposta, Dalits colocaram carcaças de vacas em frente aos escritórios do governo. Mais de 30 dalits se suicidaram em protesto. Em 15 de agosto, Dia da Independência da Índia, promoveram grandes marchas e manifestações.

Em outros tempos, o vídeo não teria causado tamanha comoção. Seria considerada mais uma atrocidade, mas tudo continuaria na mesma. “Inclusive, foi assim que aconteceu quando o massacre de Khairlanji há dez anos, quando quatro membros de família dalit foram exibidos nus, abusados sexualmente, e então cortados até a morte por um grupo de homens que pertenciam à casta dominante”, lembra a revista.

Nos anos seguintes, os crimes contra os dalits cresceram mais de 245%. No entanto, durante esses dez anos, algumas sementes foram plantadas para que o estopim acontecesse agora.

Em janeiro de 2016, Rohith Vemula, um estudante de PhD na Universidade de Hyderabad, se suicidou após sofrer discriminação no campus por sua casta. Suas últimas palavras, “meu nascimento é meu acidente fatal”, inflamaram muitas pessoas.

Diversos indianos criaram canais no YouTube e páginas, fóruns e canais, como o Dalit Camera, o Ambedkar Caravan, o Round Table India, Dalit Nation, e Dalits Media Watch para dar voz aos Dalits e expor a violência que eles sofrem.

LEIA MAIS
Black Lives Matter e a mobilização online contra a violência policial

Pardeep Attri, estudante em Londres, e criador da página Ambedkar Caravan, diz que as mídias sociais ajudaram a dar consciência e voz às pessoas. “O movimento dalit está decolando há um bom tempo, e continuará a crescer conforme os dalits se tornarem mais educados e saberem mais sobre seus direitos”, diz à Pacific Standard.

O sistema de castas em xeque

Segundo a BBC, o sistema de castas parte do Código de Manu, um livro publicado mais de mil anos antes de Cristo e que defende o sistema para manter a ordem e o equilíbrio da sociedade.

Basicamente, o sistema divide os hindus entre quatro castas que teriam origem no deus Brahma: brâmanes (sacerdotes e letrados), xátrias (guerreiros), vaixás (comerciantes) e sudras (camponeses, artesãos e operários). À parte deles, estão os sem castas, completamente marginalizados, “intocáveis,” os dalits.

Apesar disso, desde 1950, a Constituição da Índia não reconhece o sistema de castas e é contra o preconceito. B.R Ambekdar, um jurista e político ativista, foi responsável pelo documento. Estudou na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e dizia que o sistema de “intocáveis” era pior do que escravidão. Seus paralelos com a disputa racial nos Estados Unidos ajudaram a nascer o Movimento Pantera Dalit, inspirado pelos Panteras Negras. Em 2016, os movimentos “Dalit Lives Matter” e “Dalit Women Fight” foram fortemente inspirados pelo “Black Lives Matter”, que, nos Estados Unidos, combate o racismo policial.

Integrantes do Dalit Women Fight, um grupo de Delhi que luta pelas mulheres, viajou aos Estados Unidos para estudar os movimentos negros.Asha Kotwal disse à Pacific Standard:

Nossos desafios são incrivelmente semelhantes ao que os ciganos enfrentam na Europa, ou os negros nos Estados Unidos, e se ficarmos juntos, as demandas e articulações de cada comunidade poderá ser muito mais poderosa.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 115 [4] => 17 [5] => 238 [6] => 92 [7] => 125 [8] => 173 [9] => 16 [10] => 276 [11] => 25 [12] => 66 [13] => 67 [14] => 157 [15] => 62 [16] => 153 [17] => 127 [18] => 12 [19] => 19 [20] => 187 [21] => 69 [22] => 154 [23] => 175 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence