Plano de Menina: empoderamento feminino em comunidades do Brasil
plano de menina
Foto: Istock/Getty Images
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Plano de Menina: garotas empoderadas podem mudar a realidade e a economia

Camila Luz em 6 de outubro de 2016

No Brasil, meninas e adolescentes que vivem na periferia de São Paulo se casam cedo, engravidam e deixam a escola. Para a empreendedora Viviane Duarte, trabalhar o empoderamento feminino nessas comunidades é importante para que elas continuem os estudos e saibam do que são capazes.

Viviane Duarte

Viviane Duarte Foto: Reprodução/Facebok

Se essas meninas tivessem boas oportunidades e consciência sobre seu potencial, poderiam mudar a realidade de onde vivem e até contribuir para o crescimento econômico do país. “Uma pesquisa validada pela ONU mostra que elas são capazes de mudar o PIB de um país, a realidade, de serem agentes de transformação”, diz Viviane. Para ajudá-las a seguir um caminho melhor, a empreendedora criou o Plano de Menina, projeto social que funciona no Grajaú e no Capão Redondo, em São Paulo.

No projeto, elas têm aulas e workshops de auto-estima, empreendedorismo, liderança, educação financeira e participam de brincadeiras educativas. O objetivo é trazer o empoderamento feminino à garotas da periferia para que sejam protagonistas de suas próprias histórias. “Hoje, no Brasil, as meninas da periferia são esquecidas. Para os meninos, há projetos esportivos, por exemplo. Para as garotas, o que tem está voltado para questões estéticas. Mas queremos que elas ocupem de fato o espaço, que se empoderem para mudar a comunidade toda”, defende.

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Machismo e poucas oportunidades: a realidade de meninas que vivem em comunidades carentes

Para Viviane, problema grande no Brasil é o machismo, que é mais forte na periferia e prejudica o horizonte de meninas e adolescentes. “No Brasil, o machismo é muito enraizado. Meninas já nascem dentro de famílias machistas e têm mais restrições. Estudam menos, começam a trabalhar mais cedo”, comenta. “A partir dos seis anos já estão prontas para trabalhar como doméstica ou para ajudar a mãe em casa”, explica.

meninas do Plano de Menina

Foto: Reprodução/Facebook

Esse tipo de responsabilidade faz com que as meninas comecem a identificar que precisam casar cedo, constituir família e ter filhos logo. “Pesquisa de uma instituição que é nossa parceira mostrou que apenas 11% das meninas que limpam a casa têm irmãos como ajudantes, e que 81,4% das garotas têm a responsabilidade de cuidar da casa, dos irmãos e sustentar a família”, conta Viviane. “Isso minimiza o campo de visão delas, que acabam parando de estudar para trabalhar”, diz.

O Plano de Menina trabalha para abrir esse campo de visão e mostrar a elas do que são capazes. “Hoje, nossas meninas têm coach de carreira e aulas com juízas, advogadas, jornalistas… e essas mulheres estão as apadrinhando de alguma maneira”, conta. “A auto-estima precisa ser trabalhada nessa geração. Elas têm que se enxergar como cidadãs e entender quais são seus direitos para mudar a trajetória. Por isso, também têm aulas de política e direito”, completa.

O empoderamento feminino é o começo

Meninas conscientes de seu poder farão escolhas melhores e serão mães que vão criar seus filhos com outra cabeça. A empreendedora explica que no começo muitas meninas foram impedidas de participar do Plano pela própria família, que não entendia o projeto.

Quando você coloca o discurso do empoderamento feminino para essas meninas, isso vira um ruído quando elas chegam em casa. Por isso, precisamos explicar que elas têm direitos, como é ignorante pensar o contrário e que elas precisam ser inteligentes para lidar com isso.

Mulheres que foram criadas dentro de ambientes machistas reproduzem esse discurso e criam suas filhas da mesma forma. “Se ela não tiver esse discernimento, vai chegar em casa, falar que não vai mais lavar a louça sozinha e vai acabar apanhando. Por isso trabalhamos muito a questão do pertencimento, do lugar de fala, para que ganhem espaço sem criar ruído e sem prejudicá-las”, afirma.

Envolver a família e até a escola é importante. Algumas professoras começaram a frequentar o Plano de Menina depois  que suas alunas chegaram na sala de aula com ideias sobre o empoderamento feminino.

Viviane conta que mães de alunas já estão tomando consciência de seus diretos e indo atrás deles. No Capão Redondo, por exemplo, uma delas passou a brigar pela instalação de mais postos de saúde para suprir a falta na região.

O empoderamento feminino é o futuro

O Plano de Menina é feito de ciclos. No segundo, as adolescentes se tornam mentoras júnior. Em seguida, são conectadas a empresas para serem jovens aprendizes. “Queremos fazer com que elas cresçam e criem conexões para furar a bolha. Afinal, a história é essa: nasceram sem privilégios, em uma sociedade machista, se casam cedo, engravidam cedo e reproduzem o que está sendo construído há anos de geração em geração”, afirma.

Fazer com que furem a bolha e se tornem agentes de transformação é parte do que o país precisa para crescer, acredita Viviane. Afinal, mais mulheres saudáveis e felizes inseridas no mercado significa mais mão de obra qualificada para alavancar a economia. “A gente tem números da ONU que mostram que a equidade de gênero vai acontecer em 80 anos ou mais. A gente tem trabalhado iniciativas positivas para que isso aconteça em 30 anos”, conta. “Eu acredito que em 30 anos o cenário vai ser muito melhor. A pobreza ainda vai existir, mas a consciência é muito importante”, completa.

O Plano de Menina identificou que o Capão Redondo e o Grajaú são as comunidades mais carentes e necessitadas. Atualmente, atende cerca de 100 meninas que têm aulas todo sábado durante três horas.

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