RAPadura Xique-Chico faz música misturando rap e repente
RAPadura Xique-Chico
Foto: Divulgação
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RAPadura Xique-Chico, o músico que mistura rap e repente

Aretha Yarak em 26 de setembro de 2017

“O nordeste é poesia / Deus quando fez o mundo / Fez tudo com primazia / Formando o céu e a terra / Cobertos com fantasia / Para o sul deu a riqueza / Para o planalto a beleza / E ao nordeste a poesia”.

É com esse trecho do poema de Patativa do Assaré, que o músico RAPadura Xique-Chico começa uma de suas mais conhecidas faixas de trabalho. O rapentista (mistura de repentista com rap), como gosta de ser chamado, vem ganhando fama por fazer uma mistura inusitada de rap e hip hop com xote, forró, baião e maracatu.

O músico foi considerado por alguns críticos como um das mais importantes revelações da música brasileira dos últimos tempos. No final de setembro de 2013, ele chegou a ser convidado para divulgar suas rimas no programa Encontro com Fátima Bernardes.

A mistura de sons de RAPadura Xique-Chico

Natural de Fortaleza, RAPadura é Francisco Igor de Almeida do Santos. O nome artístico veio do apelido, que ganhou devido à sua paixão pelo doce homônimo: sempre que acabava uma partida de futebol com os amigos, ele comia um pote de rapadura sozinho.

Ainda criança, Francisco começou a se embrenhar pelo mundo da música ao acompanhar o pai cantor em apresentações. Em Fortaleza, foi apresentado ao som nordestino de raiz e afinou os ouvidos ao som de nomes como Marinês, Luiz Gonzaga, Heleno Ramalho, Banda de Pau e Corda e Jackson do Pandeiro.

RAPadura Xique-Chico

Foto: Reprodução

Em 1997, se mudou com a família para o Distrito Federal, onde conheceu o hip hop e virou dançarino de break. “Vi que não tinha muita habilidade com o break e, inspirado por caras como Thaíde e DJ Hum e Câmbio Negro, comecei a fazer rap”, contou em entrevista ao coletivo Vai da Pé. Aos 13 anos, ele era a única criança a fazer rap no bairro em que morava. Foi nessa época, que ganhou seu primeiro concurso de música.

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Depois que largou o break, RAPadura trabalhou durante cinco anos fazendo vocal para o rapper GOG (Genival Oliveira Gonçalves), um dos pioneiros do movimento rap no Distrito Federal, até que decidiu seguir carreira solo. A mistura entre e o repente e o rap aconteceu de maneira natural, quase que inconscientemente.

“Tenho muito a ver com os dois movimentos. O discurso do xaxado da Marinês, da década de 60, é o mesmo do hip hop, contra o racismo e o preconceito, e a favor de melhorias para o povo”, explicou o músico. “Então tem tudo a ver: o repente com o rap e o canto falado. Vejo com muita naturalidade a maneira como eu faço essa mistura”.

Apesar de ter saído do Nordeste há quase duas décadas, a região nunca deixou de ser fortemente retratada nas composições de RAPadura. Para criar as letras, conta que busca a escrita perfeita, assim como acontece nas métricas do cordel e do repente. “Têm regras de sílabas e de rima, tanto na escrita quanto na sonoridade. A rigidez é tão grande que alma e trauma não rimam no repente e no cordel, porque trauma é com ‘u’ e alma é com ‘i'”, comentou em entrevista.

Dificuldades e preconceito

No começo da carreira, RAPadura precisou enfrentar muito preconceito, porque era um nordestino fazendo rap. “Era, no mínimo estranho. Ninguém aceitava um cara de sandália e chapéu de couro fazendo rap na metrópole”, relembra. Por isso, precisou abrir espaço praticamente na marra, até começar a ser aceito pelo público e ter seu trabalho reconhecido como uma forma de arte que discute cultura e preconceito.

Sem dinheiro e sem apoio de uma gravadora, Francisco começou sua carreira de maneira completamente independente. Produziu sozinho todo o material do seu primeiro disco: da produção musical, à gravação do som e do videoclipe e distribuição. E foi preciso criatividade para produzir as composições, já que não tinha verba nem para contratar quem tocasse os instrumentos.

A saída, conta, foi gravar a canção “Fita Embolada de Engenho” com o que tinha acessível dentro do quarto. Separou sampler da Marinês e do Luiz Gonzaga e versos de Zé Bezerra e juntou tudo com uma batida de rap. Hoje, com o sucesso e reconhecimento, as produções assumiram ares profissionais e são feitas com instrumentos vivos, em cima do palco e com a presença de outros amigos músicos.

E entre as parcerias que surgiram durante a carreira, está o convite para participar da gravação ao vivo do DVD Acústico da banda O Rappa, em 2016,  na Oficina Cerâmica Francisco Brennand, em Recife (PE). No palco, RAPadura dividiu os vocais com Marcelo Falcão na faixa Reza Vela / Nordeste me Veste.

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