Congolinária, um restaurante que compartilha a cultura do Congo
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Sambusa Foto: Istock/Getty Images
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Congolinária: o restaurante criado para compartilhar a cultura do Congo

Kaluan Bernardo em 23 de outubro de 2016

Em uma espécie de praça de alimentação no Itaim, em São Paulo, há vários restaurantes. No fundo, em um pequeno estande, há cores vibrantes e bastante movimento. É o Congolinária, recém-inaugurado em São Paulo e que traz a culinária da República Democrática do Congo. O chef é Pitchou Luambo, um refugiado congolês há seis anos no Brasil. Ao lado de sua filha, Marie Luambo, ele prepara apenas receitas veganas e típicas de seu país.

Chef Pitchou Luambo

Chef Pitchou Luambo Foto: Reprodução/Facebook

Os pratos são um tanto diferentes e incluem opções como nhoque de banana da terra, sambusa (salgado típico do país, feito de berinjela, shimeji, shitake, abobrinha e tomate), ou ainda drinks como o tangawisi (bebida afrodisíaca de gengibre com abacaxi).

Pichou conta que, no Congo, o vegetarianismo é quase natural. “Lá passamos meses sem comer carne e ninguém se queixa. Só se come em dia de festa ou quando você vai receber uma visita importante. Mas no dia a dia nos alimentamos de verdura”, explica. No Brasil, percebeu que existia um forte movimento de defesa do vegetarianismo e viu aí uma oportunidade natural de apresentar a culinária de seu país.

No restaurante e nos eventos ele não só mostra a cultura de seu país, como também as raízes de sua família. O doce de banana que ele faz, por exemplo, é uma receite de família.

Essa é uma forma que ele vê de compartilhar e mostrar o lado bom de seu país, indo além dos conflitos e da pobreza. “Quando a pessoa vem até aqui, ela quer conhecer o Congo. Ela come o Congo”, diz Pitchou. “Quantas pessoas já passaram e conversaram comigo? Estou compartilhando o melhor. Isso é uma conquista e me deixa muito feliz”, comenta.

A luta pelos Direitos Humanos no Congo e no Brasil

Foto: Arquivo pessoal/Congolinaria

Foto: Reprodução/Facebook

Até abril de 2016, o Brasil tinha mais de 968 refugiados da República Democrática do Congo. Muitos deles, chegam aqui desolados por uma grande guerra, mas também sem condições de começarem a vida com dignidade no Brasil. Sem condições financeiras, sem moradia e sem falar português (o idioma oficial lá é o francês), muitos acabam sendo explorados.

No Congo, Pitchou era advogado. Trabalhava em defesa de Direitos Humanos, defendia vítimas de violência sexual e denunciava estupros cometidos por grupos armados no Leste do país. No Brasil, por motivos burocráticos, não pode exercer a profissão. Então resolveu lutar por acesso a mordia de outros refugiados.

A luta por quem não tem lugar é diária. Sem conseguir uma casa, sem conseguir abrir uma conta bancária, não se consegue nada.

Então eles oferecem informações para conseguirem moradia e saírem, aos poucos dessas condições. O que mais motiva Pitchou é mostrar o lado positivo de seu país. Embora tenha lutado muito, não gosta de falar sobre os conflitos do Congo e dos refugiados. No Brasil, Pitchou faz diversos eventos para promover a cultura e a culinária do país, dando espaço para os refugiados contarem suas histórias e se expressarem.

Foi durante esses eventos, em 2015, que ele percebeu que a culinária era uma forma de ajudar a mostrar a expressão do refugiado e do país. “Se fala muito sobre a integração do refugiado, mas normalmente não se conhece ele. Quem é ele? Que bagagem ele traz? Nós temos, por exemplo, uma comida. Somos iguais, mas diferentes. E por isso comecei a fazer os eventos culturais colocando gastronomia, dança e música”, conta.

“E aí quando a pessoa comia e via algo diferente, diminuía o distanciamento entre brasileiro e refugiado”, diz. Foi nesse momento que percebeu a oportunidade de expandir o trabalho e criar um restaurante.

Durante a conversa, Pitchou não parava de mexer em seu smartphone. Enquanto ele pedia por mais conscientização, perguntei a ele o que brasileiros poderiam fazer a mais pelos refugiados. “É preciso ir além do Facebook. A pessoa se limita, comenta, xinga, se emociona. Mas é necessário ir até o refugiado e entender o que ele quer, quem ele e, por que ele está aqui. Não é para ficar esperando as organizações. Só o refugiado sabe a dor que ele tem”, diz. Ele sonha em voltar para seu país, mas também diz que não tem muita esperança de melhoras por lá.

Os conflitos no Congo

O Congo vive em constante conflito, desde a década de 1990. De 1998 até hoje já foram aproximadamente 6 milhões de mortos decorrentes da guerra civil. O conflito no Congo é considerado o maior e mais sangrento desde a Segunda Guerra Mundial.

Embora normalmente se cite os conflitos entre tutsis e hutus, que começaram em Ruanda, país vizinho, especialistas dizem que a verdadeira natureza da guerra é a cobiça por materiais preciosos.

“É uma guerra travestida de conflito étnico, mas que esconde interesses mundanos: os trilhões de dólares enterrados no solo vermelho do leste do Congo”, escreve a jornalista Adriana Carranca, do Estadão, que foi enviada ao Congo.

Ouro, diamantes e coltan – minério que contêm elementos usados na construção de smartphones e tablets – são explorados ilegalmente no Congo e contrabandeados para países vizinhos, como Ruanda. A reportagem explica que esses metais são exportados para países como China e Estados Unidos, que então fabricam os eletrônicos.

Pitchou também defende que a exploração é o problema. “Temos mais de 400 etnias lá e nunca tivemos guerras. Cada pessoa fala seu idioma e sempre vive em paz. O problema são os países vizinhos”, comenta. Ele ainda diz que os consumidores de eletrônicos deveriam de conscientizar sobre a situação do Congo:

O fim da guerra não depende de nós. Depende de você e de todo mundo. Se estamos aqui, felizes e a alegres, e você está gravando essa conversa em seu celular, é porque o Congo existe. Porque para fazer esse celular, precisou desses minérios. É necessária uma conscientização das empresas de eletrônicos e de outros países maiores para entender a situação.

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