Intervenções urbanas conecta cidades ao seus corações
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Foto: Giselle Galvão
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Rodrigo Guima e suas intervenções urbanas afetivas em SP

Diana Assennato em 27 de abril de 2016

O ex-publicitário Rodrigo Guima mudou o conceito de intervenção urbana em São Paulo a partir das suas obras. Guima, como prefere ser chamado, cria experiências sociais para provocar mudanças corporais nas pessoas através da cidade. “É quase uma intervenção bioquímica, sabe?”, ele tenta explicar.

grupo de jovens segurando lambe-lambe

Rodrigo, Ygor Marotta e seu time de colaboradores no seu último projeto de lambe-lambe em SP. Foto: reprodução/Facebook

As suas obras têm um propósito muito claro: chegar ao íntimo das pessoas de forma profunda e sem julgamento, para provocar novas sinapses, novos olhares. “Cada um tem que ser livre para absorver o que a obra diz e fazer o seu download da forma que quiser, não quero empurrar nada guela abaixo”, ele conta. Mas o objetivo final é sempre o mesmo: tirar as pessoas da mesmice e reconectá-las com os seus corações usando a cidade como ferramenta de diálogo.

A minha jornada não é política. Eu trabalho a consciência emocional atrelada ao protagonismo civil.

 

Não existe amor em SP

Guima é mineiro, tem 34 anos e mora há 10 em São Paulo. Chegou na cidade sem saber o que esperar, sem expectativas, mas de cara entendeu que não seria uma tarefa fácil aprender a amar “essepê”. “São Paulo me provoca, mas eu provoco do outro lado. Sei que eu a amo e a odeio ao mesmo tempo. Pelo seu peso, corpo, fluxo, não é fácil. Vivo em um eterno cabo de guerra”, ele confessa. Talvez essa dualidade tenha sido exatamente o que o levou a questionar esse modus operandi e a querer enxergar o amor escondido nas ruas cinzas.
Em 2011 o músico Criolo cantou em alto e bom som: “aqui ninguém vai pro céu”. Mas Guima e um grupo de amigos discordaram de cara: “as pessoas só estavam endurecidas como estátuas.”, ele diz. Foi assim que nasceu a sua primeira grande intervenção urbana.

 

Aqui também bate um coração

Guima mapeou as principais estátuas da cidade com uma ideia maluca em mente: colar corações em mais de 70 esculturas humanas espalhadas por São Paulo. Em menos de 1 semana conseguiu tirar a ideia do papel com a ajuda de 20 amigos, todos prontos para transformar as ruas durante uma madrugada de domingo : “Queríamos mudar a realidade de uma segunda-feira, tirar esse peso da semana e fazer com que a cidade acordasse diferente”, conta Guima.

escultura urbana com intervenção urbana de Rodrigo Guima

Foto: arquivo pessoal

A resposta foi surpreendente: a cobertura da mídia, a reação das pessoas, o envolvimento e as provocações que aqueles pequenos corações de isopor causaram foram muito além do que Guima esperava. Começaram a receber pedidos de outras cidades, de outros países. Foi aí quando ele entendeu que deveria se tornar só uma ferramenta para potencializar essa propagação.

mapa múndi com corações

Lugares do mundo que toparam as intervenções propostas por Rodrigo. Foto: reprodução/Facebook

Nos útlimos 3 anos foram mais de 50 cidades dentro e fora do Brasil.
“Percebi que existia uma vontade latente de usar a rua como plataforma de expressão e protagonismo civil. Mexer no que tá dentro mexe com o que está fora”, conta.

Aqui o tempo parou

Em 2013, no auge das manifestações que tomaram as ruas de São Paulo em protestos contra o aumento da passagem de ônibus, uma agência de publicidade que atende a Prefeitura os chamou para fazer uma intervenção urbana com os relógios parados da cidade. No fim das contas o projeto não andou, mas eles já tinham em mãos o mapeamento dos 300 relógios quebrados. “Não tivemos dúvidas: colamos lambes em todos eles com a frase ‘aqui o tempo parou’. Queríamos que as pessoas lessem aquilo, parassem tudo o que estavam fazendo e se sentissem presentes”, conta.

relógio de são paulo com intervenção urbana de Rodrigo Guima

Foto: arquivo pessoal

 

Cabeça, coração

Durante a Virada Cultural do ano passado, Guima percorreu as ruas de São Paulo com uma performance urbana que causou estranhamento: vestia uma grande cabeça feita de papel machê em formato de coração, sem espaço para respirar ou enxergar, guiado apenas pelo rádio onde recebia orientações. “As pessoas me olhavam chocadas. Só isso já as fazia quebrar o flow e a me olhar de uma forma diferente”, conta Guima.

homem com cabeça de coração

Rodrigo com sua cabeça de coração. Foto: arquivo pessoal

Sentaqui, meu amor

Em agosto de 2015 Guima teve um insight ao reparar em um sofá abandonado: a cidade é feita de lugares de passagem. As ruas eram feitas para andar, não para parar e sentar. “Aí eu pensei ‘imagina que legal ter um lugar no meio do seu caminho para parar, sentar e olhar a cidade sem pressa?'”, conta. Foi assim que nasceu o projeto, que recolheu 11 sofás abandonados e os reposicionou em locais de grande tráfego com a frase estampada “Sentaqui, meu amor”: Avenida Juscelino Kubitschek, Paulista, República, Berrini… lugares onde a vida passa em piloto automático.

O coração, aliás, é um ícone que foi ganhando importância em sua vida. É um símbolo de amor e de afeto que também incita a provocação, além de ser universal e funcionar em qualquer idioma. Ao descobrir que o coração é o primeiro órgão a se formar no embrião (e não o cérebro, como imaginava), Guima passou a se interessar pelo símbolo como propulsor de energia, como agente de conexão com a própria consciência.

“Estou seguindo as pistas do meu propósito a partir do meu próprio coração. Hoje eu achei um nome para definir o que faço. Sou um social artist, que usa as pessoas e as ruas para pintar telas de uma nova realidade social”, ele conta.

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