Para que servem os selos musicais? Conheça selos brasileiros
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Foto: Istock/Getty Images
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Os selos musicais independentes continuam fortes; mas como funcionam?

Kaluan Bernardo em 23 de fevereiro de 2017

Muitas vezes reconhecidos como sinônimo de música independente, os selos musicais atravessaram a história da cultura agrupando artistas, fortalecendo cenas e promovendo movimentos .

Inicialmente, os selos eram braços de grandes gravadoras para trabalhar com nichos específicos. Mas com o passar do tempo, passaram a dialogar diretamente com os nichos sem precisarem do guarda-chuva da gravadora. Com a internet, os selos se proliferaram de vez, permitindo que qualquer um criasse o seu e organizasse determinada cena musical.

Eles podem ser pequenos e ir além do gênero musical. É o caso da PWR Records, de Recife, que exige apenas que a banda tenha uma garota e ela tenha protagonismo. Em outros casos, um selo pode ter quase uma década, lançar dezenas de discos gratuitos e focar apenas em “bandas barulhentas” (post-rock, shoegase, noise, drone etc), como é o caso do paulistano Sinewave. O Free the Essence conversou com os organizadores de ambos para saber, afinal, qual o papel de um selo nos dias de hoje.

Para que serve um selo em 2017?

Um selo musical pode ter diferentes funções, desde que tenha uma estética artística coerente. A ideia é que um selo, ao agrupar diversas bandas com propostas semelhantes, consiga ter maior força de negociação quando for apresentar algo.

Diferente de um coletivo, que muitas vezes pode ser gerido por várias pessoas, um selo costuma ter poucas – ao menos no caso dos independentes. A Sinewave, por exemplo, é tocada por apenas duas pessoas: Lucas Lippaus e Elson Barbosa; a PWR Records também: por Hannah Carvalho e Leticia Tomás.

selos musicias PWR Records

Hannah Carvalho e Leticia Tomás. Foto: Arquivo Pessoal

“Penso em qual a nossa função todos os dias”, conta Letícia. “Teoricamente não há nada que um selo faça que uma banda não possa fazer. Elas já se viram bem em marcar show, lançar material e divulgar. É por isso que queremos transcender esse mercado e fazer ações que integrem mulheres na música”, diz.

A PWR Records tem pouco tempo. Nasceu em outubro de 2016. Ainda está procurando por um modelo de negócios, mas já percebeu que uma das formas de ir além do trabalho tradicional é promovendo oficinas e cursos com as mulheres das bandas.

Já para Elson e Lucas, um aspecto muito forte do selo é a curadoria. “Curto pensar que oferecemos uma espécie de tag para a banda. Ela passa a fazer parte de um catálogo que tem várias outras semelhantes e que atingem um público com aquele mesmo gosto”, comenta Elson. A ideia é que quando uma pessoa ver um lançamento da Sinewave ela saiba o que esperar, mesmo que nunca tenha ouvido falar sobre a banda.

Essa proposta é especialmente importante para a parte de assessoria de imprensa. A Sinewave, por exemplo, tem uma lista de jornalistas que ganham acesso antecipado aos lançamentos. Quando eles recebem um email do selo, já sabem que será uma banda de rock barulhento.

Outro trabalho que a Sinewave e outros selos fazem é a distribuição digital das músicas. Quando uma banda vai lançar um disco, eles já entram em contato com as distribuidoras para garantir que tudo estará disponível nos serviços de streaming.

Apesar de serem diferentes de um coletivo, os selos se apoiam muito na sua comunidade. “Eu e Hannah contamos muito com a ajuda de outras bandas e projetos para fazer nossas ações. Nesse sentido funcionamos quase como coletivo”, diz Letícia. No caso da Sinewave há um grupo no Facebook, com aproximadamente 7.600 membros um tanto ativos, repleto de discussões intensas e trocas de dicas musicais. No meio dos debates conhecem as bandas do selo.

Mas em tempos em que vendas de CD ou mesmo o streaming não dão muito dinheiro, a grana – tanto da banda quanto do selo – parece vir dos shows. Nesse caso é comum os organizadores do selo, quando agendam o show, cobrarem uma apresentação, como acontece na Sinewave.

selos musicais Sinewave

Lucas Lippaus e Elson Barbosa, Sinewave. Foto: Arquivo Pessoal

Elson conta que nunca deu certo a ideia de cobrar pelos downloads. Até quando fizeram um experimento de colocar um plugin para que as pessoas pagassem apenas um tuíte para baixar, os resultados foram desastrosos. “Quase zeraram os downloads. Se fosse um lançamento do Radiohead, qualquer um pagaria com um tuíte dando risada. Mas percebemos que quando é uma banda desconhecida, mesmo o tuíte é um preço alto”, argumenta.

Hoje nenhum dos dois selos consegue gravar e produzir, desde o início, o disco das bandas. Mas tanto Letícia quanto Elson e Lucas afirmam que têm essa vontade para o futuro.

Selos independentes não costumam exigir exclusividade com as bandas. Se elas quiserem lançar com outros selos ou sozinhas não há ciúmes. “Damos liberdade total, queremos mais ajudar do que atrapalhar”, diz Lucas. “Nossa política é para não dar nenhuma dor de cabeça. Até achamos legal que elas lancem com outros selos, porque aí a banda cresce com isso”, conta.

As parcerias com outros selos também funcionam na hora de realizar festas, feiras e shows. No próximo Dia da Música (24 de junho), por exemplo, a Sinewave montará um palco em frente ao de outro selo, a Howling Records, e alternará os shows, apresentando uma banda de cada.

No caso da PWR Records a parceria com outros selos é ainda mais importante, principalmente para ajudar as bandas a lançarem shows em lugares que elas ainda não conseguiram penetrar. “Apesar de estarmos no Nordeste, muitas das nossas bandas são do Sul e do Sudeste”, conta Letícia.

Em busca de uma coerência artística

A PWR Records nasceu de uma grande lista. Hannah e Letícia, que trabalhavam como produtoras de show, resolveram fazer uma grande compilação de bandas independentes com mulheres. Ao ver o tamanho do mercado e quanto as bandas não estavam articuladas entre si, perceberam que podiam aproveitar a ocasião para executar o antigo sonho de ter um selo.

O selo e a lista também acabaram se tornando uma resposta ao recorrente machismo que as garotas encontram no mercado musical. “Há muito machismo velado, de técnico de som falando para baterista que ela não sabia montar o instrumento até casa dizendo que não confiava em nosso trabalho”, diz Letícia.

Já a Sinewave nasceu em 2008, nos tempos de Orkut e MSN. Elson passava um bom tempo fuçando na internet por bandas brasileiras com um som mais diferente. Um de seus colegas de fórum, Luiz Freitas, também era desses. Juntos perceberam que havia muita coisa legal sendo lançada no Brasil, mas que também não estava articulada entre si. “Pensamos em um site de resenhas, em um podcast, em um festival, até que vimos alguns selos lá fora e percebemos que podíamos criar um site simples e postar os lançamentos gratuitamente por lá”, conta Elson.

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Reuniram cinco discos para o lançamento e logo chamaram a atenção de muita gente. Começaram a receber tanta proposta de bandas que decidiram que, religiosamente, toda sexta-feira lançariam um disco novo. E assim foi por um ano e meio, até que passaram a diminuir o ritmo e focar, cada vez mais, em curadoria.

Com o tempo Luiz foi morar na Irlanda e o novo sócio de Elson nessa empreitada se tornou Lucas. Já lançaram 165 discos de 80 artistas, sendo que 30 estão ativos. Ao todo já conseguiram 200 mil downloads no projeto.

Como começar seu próprio selo

Caso você esteja pensando em criar um selo próprio, já deve ter percebido que dá trabalho. Todos os entrevistados se dedicam integralmente a seus projetos. “Quando falamos em trabalhar com música você deve estar ciente que embora não seja impossível, é difícil. Você vai ter que se doar demais. E por isso precisa estar ciente, senão a tendência é desanimar e parar em pouquíssimo tempo”, alerta Lucas.

Mas se mesmo assim você sente que essa é a sua pegada, a revista Fact conversou com os criadores de alguns dos maiores selos do mundo para eles deixarem suas dicas. Resumidamente são elas:

1) Não pense demais, simplesmente comece;
2) A música deve vir antes do selo;
3) Uma visão clara ajuda, mas não há por que temer a incerteza;
4) Lance músicas que você acredita, que você pensa que irão sobreviver ao teste do tempo;
5) Honre a visão do artista em relação a habilidade dele, mas principalmente honre sua própria habilidade;
6) Organize-se, pesquise bastante e ame administrar;
7) Prepare-se para temos difíceis;
8) Crie produtos físicos bonitos que você gostaria de comprar;
9) Não tenha medo de abraçar o futuro;
10) Monte um calendário e tente segui-lo ao máximo, mas espere por atrasos, muitos atrasos.

Conheça alguns selos independentes brasileiros

E aqui vai uma pequena lista que elaboramos de selos brasileiros independentes para você conhecer:

Balaclava Records
Fundada em 2012, já lançou bandas como Cabana Café, Holger, Mahmed, Medialunas, Minks, Quarto Negro, Séculos Apaixonados, Single Parents, Supercordas, Terno Rei e alguns internacionais, como Mac McCaughan, The Shivas e Yuck.

Beatwise
Fundado em 2013, já lançou bandas como CESRV, Sono TWS, Bad$ista, Neguim Beats e Anshu Sounds.

Discotech Music
Criado em 2015, lançou artistas como DJ Glenn, Nana Torres, Touchtalk, Keskem e Dakar.

Dissenso Records
No mercado desde 2005, lançou artistas como Labirinto, Bemônio e Berlina.

Howlin’ Records
Criado em 2014 lançou diversos artistas de rock alternativos, como In Venus, Mieta, Poltergat, Penhasco e Vapor.

La Femme Quiroule
Voltado a bandas de Belo Horizonte, já lançou artistas como Moons, Congo Congo, Invisível e outros.

Midsummer Records
O mais antigo dessa lista, lançado originalmente em 1996. Tem um extenso catálogo com bandas como Pin Ups, Motormama, Loomer, Killing Chainsaw, Felini e Frabin.

Monstro Discos
Também veterana, a Monstro foi criada em 1998 e já lançou Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Jupiter Maçã, Astronautas e outros.

Perception Corporation Records
Criado em 2010 e voltado mais à música eletrônica e experimental, já lançou Anvil FX, Monsters At Work, Arthru Joly e outros.

PWR Records
Criado em 2016 no Recife busca valorizar mulheres. Trabalharam com Papisa, In Venus, Mieta, Cora e outros.

Risco
Provavelmente um dos com maior projeção na lista, foi criado em 2013 e já lançou bandas como O Terno, Mustache & os Apaches, Charliue e os Marretas e Memórias de um Caramujo.

Rosa Flamingo
Um pouco menos underground, o Rosa Flamingo abriga nomes mais conhecidos, como Tiê , FigerFingerrr, Nana Rizinni e André Whong.

Sinewave
Na internet desde 2008 tem mais de 80 artistas com estética de “noise rock” e já lançou bandas como Huey, Herod, Loomer, Kalouv, Testemolde entre outras.

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  • Renan Rossito

    Muito bacana o artigo.
    Penso em abrir um selo mas esbarro em algumas dúvidas como: o trabalho oferecido pelo selo é gratuito e o retorno vem com o tempo?

    Os selos cobram para que os artistas gravem com eles?

    Como funciona exatamente esse mercado?

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