Para Tássia Reis, Brasil está vivendo um levante do rap feminino
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Para Tássia Reis, Brasil está vivendo um levante do rap feminino

Débora Stevaux em 29 de agosto de 2017

“Eu me investigo muito, eu penso muito em quem é essa pessoa, quem sou eu, sabe?”, assim deu a letra a rapper Tássia Reis, com 28 anos recém-completos no dia 16 de agosto, leonina natural de Jacareí, município do Vale do Parnaíba, São Paulo.

A história de Tássia com o hip-hop tem exatamente a metade de tempo de vida: aos catorze, começou a cursar aulas de dança de break. Foi então que a adolescente, que já tinha gosto por escrever crônicas, poesias e outros textos curtos ao som de Racionais MC’s e Sabotage, cedeu à pressão das amigas que estavam num evento de rap na capital e fez, pela primeira vez, um freestyle no microfone.

“E quando eu fiz eu gostei muito, pensei: poxa, talvez… será que eu vou cantar rap? E a partir daí as coisas foram se aproximando. Eu conheci uns amigos que estavam no mesmo evento. Um deles, o Douglas San, que morava perto de mim, em Jacareí, começou a me ensinar algumas coisas, me ensinou métrica, e eu já cantava, gostava de cantar, não estudava ou coisa assim. E então eu misturei o que eu fazia, as poesias com o meu gosto por cantar e com essa coisa nova que estava vindo. Acabei gostando e falei: Vou fazer isso daí!’,” relembra.

A primeira vez que o timbre suave e forte de Tássia apareceu profissionalmente foi nas faixas “Pretensão” e “Flor Laranja”, do álbum “Quando é Preciso Voltar” lançado no ano de 2011 pelo rapper AXL. Três anos mais tarde, a cantora revelou que nem só de rap era construído seu repertório, fã de nomes femininos de peso do jazz como Aretha Franklin, Etta James e Nina Simone, Tássia lançou seu primeiro EP homônimo. Numa mistura deliciosa dos dois ritmos que flertam constantemente, o compilado de sete canções materializa as referências do universo cultural negro de seus pais, que frequentavam assiduamente os tradicionais bailes blacks que estremeciam o bairro do Palmeiras, na cidade de São Paulo, durante a década de 80.

“A revolução será crespa e não na TV”

Em 2016, a paulistana consolidou seu caminho por entre as entranhas da música brasileira com o disco “Outra Esfera”. Na contramão da desvalorização e do apagamento histórico dos negros no meio cultural, Tássia lançou, num encarte em que aparece mostrando sua tatuagem acima do seio esquerdo com os dizeres “Todo amor, todo poder, toda glória, toda ternura”, e numa atmosfera estelar, com flores, raios e Lua, sete músicas.

“Eu falo de coisas que eu acredito, sabe? Então, o meu disco está falando sobre várias coisas, sobre proibição, sobre opressão, sobre o amor, sobre a conexão do amor e espiritualidade, está falando sobre lugar de fala, sobre amor próprio, sobre relacionamento abusivo. São coisas que são recorrentes na vida das mulheres, e principalmente na vida das mulheres negras”, explica.

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O teor combativo das canções é imprescindível e coloca o dedo em feridas sociais abertas como o machismo e o racismo. Um exemplo são os versos de “Ouça-me R M X”: “Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu / Eu tentei com carinho e o sistema me agrediu / Então eu grito, elevo o meu agudo ao infinito! / Pra mim não tem dilema / Se tá difícil eu explico.

Tássia ama o que faz, é visível ver sua entrega completa durante as apresentações. Seja em uma casa de shows ou em uma Fábrica de Cultura no extremo leste da capital paulista, sua postura é a mesma: cativante.

“Muitas pessoas se identificam com o que eu estou falando ali, porque eu estou falando a partir de uma realidade e a partir dessa realidade, trago vivências. Por isso as pessoas se identificam com isso. Eu não posso falar para uma pessoa que é importante que ela ouça meu disco, para ela ouvir meu disco porque ele fala sobre isso. Se isso for importante para ela, se fizer algum sentido, ótimo, eu venci, entendeu? É muito importante para mim fazer isso, porque fazer isso me salva diariamente, se entregar da maneira que eu me entrego. Realmente amo fazer isso e tem sido libertador para mim. Então, eu quero continuar, e se mais pessoas se conectarem com isso, ótimo, a gente segue juntos nessa caminhada”, confessa.

Juntas nos fortalecemos

Em maio deste ano, Tássia e outros seis nomes conhecidos da cena do hip hop feminino se uniram com um propósito: produzir material audiovisual. Mas a energia dos encontros de Mayra Maldijan, Tatiana Bispo, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Alt Nisscom e Tássia Reis, que aconteciam com um microfone aberto, sem roteiro previsto, numa espécie de cypher — como é caracterizado o encontro de MC’s em rimas conjuntas –, foi além. Nasceu, então, o coletivo de rappers “Rimas e Melodias”, que lançou, em agosto o single “Origens”: em pouco mais de sete minutos, o som, como o próprio nome já diz, versa sobre a gênese de cada uma enquanto mulher, negra, MC.

Para o fim do ano, está previsto o lançamento de um EP, além de uma série de shows que já está sacudindo a capital paulista em uma espécie de levante do rap feminino. “Quando nós do Rimas decidimos nos encontrar foi porque a gente sentiu necessidade de produzir material audiovisual para botar na internet, com as nossas caras, a gente falando do que a gente quer falar, porque era escasso. A gente está num levante do rap feminino, têm muitas mulheres fazendo um som e tal, que a gente está conseguindo encontrar, porque as mulheres sempre tiveram, mas a gente não conseguia se conectar e tudo mais. Era tudo distante, uma aqui, outra ali. Hoje, a internet faz essa ponte para nós”, conta ela

Ao se encontrar para fazer esses vídeos, o grupo sentiu uma energia incrível e quis dar um passo além disso, fazer shows e produzir um disco. “Hoje, nós estamos vivendo essa experiência, juntas, são sete potências, sete mulheres, sete chaves, são sete cabeças, e cada uma de um jeito, se unindo, se fortalecendo e se amando também em prol da música, em prol do hip hop. Então, acho que é muito gostoso quando isso acontece, e é natural do jeito que está acontecendo com a gente, sabe? Tem sido muito gratificante viver esses dias”, finaliza.

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